Prefácio

Por Sandro Vaia

O título do livro de Anélio Barreto pode servir como um epitáfio aos jornais que agonizam e ao mesmo tempo como um diagnóstico das razões dessa agonia: morrerá mais rapidamente quem esquecer que a essência mesma do jornalismo é contar – e contar bem – boas histórias, com começo, meio e fim.

Por razões empresariais, industriais, estratégicas, econômicas e o que mais se queira usar como justificativa, os jornais impressos estarão em marcha acelerada rumo à irrelevância e à obsolescência que os levará à morte na medida em que insistirem em se tornar registros formais e sem vida das notícias de ontem.

Anélio foi um dos melhores repórteres que passaram pelo Jornal da Tarde na época em que ele revolucionou a imprensa brasileira. Uma das características dessa revolução foi o casamento que o jornal conseguiu fazer entre forma e conteúdo. Essa revolução consistiu em permitir e estimular que a linguagem gráfica com que se trabalhava a apresentação e o acabamento das reportagens fosse integrada à essencialidade do conteúdo e à própria forma em que o texto era elaborado. Um conceito de edição que até então não era usado nos jornais brasileiros.

Esse conceito fez com que alguns dos melhores repórteres, como é o caso de Anélio Barreto, se transformassem em excelentes editores, pois conseguiam dominar ao mesmo tempo a linguagem escrita e a linguagem gráfica, de forma que elas funcionassem plenamente integradas e resultassem numa edição harmoniosa. Foi isso que fez do JT um jornal diferenciado, inteligente, instigante e revolucionário, uma verdadeira referência no jornalismo brasileiro nos anos 60 e 70.

O dia em que se contar a história do Jornal da Tarde será possível verificar que a sua revolucionária trajetória editorial nunca conseguiu ser acompanhada por um equivalente êxito empresarial por razões que escaparam totalmente do controle dos profissionais que puseram em andamento aquele projeto notável, entre os quais deve-se obrigatoriamente citar Mino Carta e Murilo Felisberto, que implementaram o conceito e foram responsáveis pela formação da equipe.

Anélio foi um dos muitos jovens que apareceram atraídos pelo brilho inusitado do projeto heterodoxo e empurrados pela inclinação natural para a aventura jornalística. Era um bancário forçado, obviamente fora do lugar, e em vez de passar o dia contando dinheiro, queria realizar a sua vocação, que era a de contar histórias.

A maioria dos jovens que formaram a agitada redação do JT daquela época tinha pouca vivência no jornalismo tradicional – e isso foi uma grande vantagem, porque eles não traziam o peso dos vícios e das convenções. Vinham todos, isso sim, com uma grande curiosidade intelectual, com uma poderosa vitalidade, pronta para se transformar em matéria prima para o desenvolvimento do talento natural que cada um cultivava à sua maneira.

Era moda na redação do jovem JT andar com um exemplar do livro ‘Aos olhos da Multidão’, de Gay Talese, embaixo do braço. O livro, que depois foi reeditado com o nome de “Fama e Anonimato”, é uma antologia de reportagens desse monstro sagrado da vertente chamada de ‘new journalism’, publicadas no ‘The New York Times’. O ‘new journalism’, no fundo, nada mais é que uma história geralmente de grande interesse humano, bem apurada, bem escrita, bem contada, muito informativa e muito agradável de ler. Uma definição um pouco mais pernóstica e pedante para isso é ‘jornalismo literário’– mas essa é uma discussão acadêmica, porque o uso da palavra literário pode franquear a  algum espírito mais ousado a tentação de  prescindir dos fatos e conceder privilégios à ficção, adulterando o verdadeiro sentido do jornalismo.

Cada um dos bons repórteres do Jornal da Tarde imprimiu seu modo particular de ver as coisas aos princípios gerais que Talese e outros grandes repórteres consagraram sem sistematizar ou normatizar. Assim, o ‘new journalism’ brasileiro ganhou as tintas próprias de cada autor, de modo que a grande reportagem se tornasse identificável não por obediência a normas, regras ou princípios pré-estabelecidos, mas sim pela força do seu próprio vigor narrativo e pelo prazer derivado de sua fruição estética.

As 15 reportagens reunidas neste livro, escolhidas pelo próprio Anélio, representam uma mostra extremamente significativa de sua produção da fase mais intensiva de sua vida de repórter. Claro que um bom e verdadeiro jornalista nunca deixa de ser repórter – sua essência é essa. Mas há circunstâncias que às vezes escapam de seu controle que o obrigam a empregar seu talento nas tarefas internas de uma redação. Foram essas circunstâncias que o transformaram em editor durante uma parte considerável de sua carreira, mantendo as mesmas qualidades que consagraram o repórter.

Nesta antologia é possível avaliar a facilidade com que Anélio trafega entre assuntos tão diferentes e tão contrastantes de forma a imprimir a cada um deles o toque pessoal que dá sentido à estrutura do texto e provoca, ao final da leitura, a sensação de ter acabado de saborear, em forma de história, uma aventura humana de primeira grandeza.

Assim é com a narrativa da extraordinária vida de Frank Sinatra chegando aos 80 anos; com a visita ao implacável cenário de degradação humana numa Angola em guerra; na sutileza da visita ao suave cenário irlandês da minúscula Cong, que John Ford rebatizou de Innisfree, e onde ele filmou o seu ‘Depois do Vendaval’; nos personagens da subvida da cracolândia paulista; na história de vida do jogador Adriano, que nasceu na favela, virou Imperador, e alguns anos depois desse retrato acabou abandonando os palcos gloriosos da Europa para voltar às suas origens; no retrato de Carrapateira, cidade mais pobre do Brasil; na descrição da vida de Michelangelo Buonarotti, o gênio da Capela Sistina; na visita aos índios de uma tribo do Xingu que adora a lua justo na época em que o homem pôs os pés lá; no passeio pelo cotidiano da Daslu, templo paulistano do consumo de luxo.

Um bom repórter não escolhe temas, e as reportagens que citei são uma prova disso. Mas há misteriosos atos da natureza humana que sempre seduziram Anélio, desde sempre um devorador de romances policiais. Tanto que escreveu um – ‘O Homem que Roubou a Copa do Mundo’, onde põe à prova a simbiose entre o talento narrador do jornalista rigoroso com os fatos e o do ficcionista com licença para criar.

Na coleção de reportagens aqui reunidas, Anélio presta tributo ao seu gênero preferido em quatro delas: um passeio com o autor de romances policiais Garcia-Roza pelo bairro do Peixoto, um raro microcosmo incrustado em Copacabana, onde ele localiza as aventuras de seu detetive, o delegado Espinosa; a história de Marquinho, aventuroso bandido adolescente; a reconstituição da tumultuada e doentia trajetória de vida do assassino do estilista Gianni Versace; o misterioso assassinato da mulher do astro de futebol americano O.J.Simpson e seu amante – um crime até agora impune.

Mas é na detalhada, minuciosa, arrebatadora narrativa do crime da Rua Cuba – o assassinato de um casal de alta classe média num bairro elegante de São Paulo, com as suspeitas recaindo sobre um filho deles – é que o sentido de reportagem alcança seu ponto mais alto. Publicada em série pelo Jornal da Tarde, culminou num acidente editorial sem precedentes (o jornal encerrou a série com uma edição desastrosa em que se insinuava a revelação do nome do assassino, o que a reportagem de nenhuma maneira autorizava).

Anélio se envolveu nos detalhes do crime como se fosse um investigador, para poder levar o leitor, através da sua narrativa, aos meandros da história. Não seria exagero dizer que, se o crime fosse a júri popular, o relato do repórter, de tão detalhado e completo, poderia fazer as vezes dos autos do processo – se fosse possível aspirar a autos de processo tão bem escritos.

Para citar de novo Gay Talese, quem está em crise no mundo hoje são os jornais, não o jornalismo. Se não existe mais espaço nos jornais para reportagens como as que este livro reúne, pior para os leitores. E se é pior para os leitores, é pior para os jornais.  Quando eles se derem conta de que estão cada vez mais substituindo a narrativa de assuntos de interesse humano pela redundância da informação plana, rala, rasteira e sem o valor agregado da argúcia, da capacidade de observação, da inteligência e do talento narrativo, já pode ser tarde demais.

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É Marquinho. Ele e seu revólver

(Escrita em São Paulo para o Jornal da Tarde, publicada em 31 de outubro de 1968) 

Bananas, doces, bebidas, balas. É Marquinho começando a roubar.

Maconha, psicotrópicos, injeções. É Marquinho já viciado.

Dinheiro, revólveres. É Marquinho trabalhando.

Tiros. É Marquinho matando.

Música, meninas, um garoto de 18 anos dançando num salão. É Marquinho se divertindo.

O pai era um samango, soldado da Força Pública; a mãe, uma dona de casa muito ciumenta. E havia também Emira, uma das irmãs, que foi quem provocou a briga entre os dois.

– Foi assim – conta o menino. – Um dia a Emira vinha voltando da aula, à noite, e viu meu pai numa boate. Quando ela chegou em casa contou para  minha mãe. Pois ela foi lá na boate, entrou e bateu na porta de um quarto, gritando para meu pai que estava lá dentro. Então ele pulou a janela, que ficava a15 metrosde altura. E ficou aleijado.

Vieram as conseqüências para seu André Eurico de Moura – o pai de Marquinho: a baixa da Força Pública, por incapacidade física, a venda de sua oficina de sapateiro. E, um ano depois, a morte. Deixou dona Alvina Gonçalves de Moura, só, para cuidar de oito filhos.

– E meu primo também, o Aparecido, que foi morar com a gente.

Emira é a irmã mais velha – tinha 17 anos naquela época – e resolveu vir trabalharem São Paulo, deixando Muzambinho. Muzambinho, Minas Gerais – a cidade de seu André, onde ele se casou com dona Alvina quando ela chegou de Itamegi. Agora, dona Alvina dava as ordens.

– O Marquinho tem que estudar!

O menino foi para o Grupo Escolar. Mas, quem sustentaria a casa? Alguém teria que trabalhar: o Homero, um irmão de 13 anos, e o Aparecido, o primo. Os dois se tornaram ajudantes de pedreiro. Marquinho lembra bem daquela época:

– Com o dinheiro que eles ganhavam, dava pra gente viver. O resto, menos minha mãe, estudava. Até que chegou a carta da Emira e da minha avó.

Uma carta falando de São Paulo, uma cidade onde a vida era mais fácil, onde se ganhava mais dinheiro. Dona Alvina resolveu arriscar. E veio a mudança, em1959. Acasa de Vila Mirante, O Grupo Escolar Nossa Senhora do Retiro….

– É. Minha mãe quis que eu continuasse estudando.

E Dácio, Jacarezinho, Silvinho e Joel, todos menores, entre 10 e 12 anos, que Marquinho conheceu aqui e se tornaram seus amigos.

– O mais velho era o Dácio mesmo, com 15 anos.

O trabalho de servente e pedreiro continuou para Aparecido e Homero. Mas agora havia mais gente ajudando a ganhar dinheiro: a Emira, que trabalhava aqui, e a Dalva, uma outra irmã, de 15 anos, que começou a trabalhar na King, uma fábrica de bijuterias, lá em Pinheiros.

Foi aos poucos que Marquinho começou a trocar o 4º. ano do Grupo Escolar Nossa Senhora do Retiro pelas feiras-livres de Pereira Barreto, Freguesia do Ó e Vila Miriam. E começou a roubar.

– O Dácio é que me ensinava: a gente ia por trás das barracas e mandava frutas, bebidas e doces. Sem o dono perceber. A gente tinha que ir para a aula às 7 da manhã. Em vez disso, íamos para a feira.

Depois dos roubos? Os meninos escondiam tudo no mato e voltavam para casa, na hora em que as aulas terminavam. E almoçavam depressa, para encontrar-se outra vez.

–Então a gente pegava tudo que estava escondido e ia para uma lagoa, lá na estrada de Capuava. E bebia, comia e nadava a tarde toda, até as cinco horas. Por que nós roubávamos? Por farra. Não tínhamos necessidade

Faz sete anos a primeira vez que Marquinho roubou dinheiro, quase sem querer. Foi na feira também, no dia em que ele entrou numa barraca e encontrou uma pasta cheia de notas de mil e 500 cruzeiros antigos. Era só pegar e correr.

– E eu peguei e corri. Nunca tinha visto tanto dinheiro, não acabava mais: 160 contos. Nesse dia tava eu, o Silvinho e o Dácio.

Nos fundos do quintal da casa de Vila Mirante, em uma lata de margarina, Marquinho escondeu o dinheiro roubado. Gastava aos poucos, tirando algumas notas por dia, que repartia com Dácio e Silvinho. Era preciso gastar tudo.

– A gente não podia comprar roupas, porque era sujeira aparecer com roupa novaem casa. Minhamãe ia querer saber de onde veio. Então nós gastávamos tudo de bobeira.

Com o dinheiro roubado, veio também a primeira maconha, que Dácio comprou em Utinga, pagando 40 cruzeiros novos por60 gramas.

– Ele comprou de um negão, num bar que tinha lá. Dácio bateu um papo com o cara, os dois entraram no banheiro e logo ele voltava, com um pacotinho. Foi uma farra. Nós fizemos uma bombona e fomos fumar lá numa quebrada. Depois voltamos de trem, todos loucos.

O primeiro roubo, a primeira prisão, 28 dias depois do roubo. Ela aconteceu por causa de um colega que foi preso e contou que Marquinho roubara o dinheiro de um velho na feira.

Agora o menino ri, ajeita o cabelo liso que cai na testa, passa a mão pelos olhos verdes, conta como aconteceu:

– Depois que me dedaram, os caras quiseram pegar na minha bota. Foram me procurar em casa, mas eu fugi.

Fugiu e mandou Neguinho, apelido de Silvinho, à sua casa, pedir alguma roupa a um de seus irmãos. Neguinho foi e falou diretamente a dona Alvina. Ela pediu que ele entrasse num quarto e esperasse, enquanto faria um embrulho. Em vez disso, trancou a janela, a porta, e chamou a polícia. O menino, preso, levou os investigadores até o morro do campo do Tiradentes,em Vila Mirante. Eralá que estava Marquinho.

– Foi minha primeira cana. Mandaram–me para o Juizado de Menores e me prenderam por 15 dias.

Todos os amigos dele foram presos naquele dia. Até o Murilo, que fez uma corda com dois lençóis e tentou fugir pela janela. Um dos lençóis rasgou com o peso, Murilo caiu e começou a gritar. Vieram os guardas e, com eles, uma boa surra para cada um. Depois da surra, a liberdade.

Alguma coisa mudou em Marquinho depois disso: se antes ia pouco à escola, de repente passou a não ir. Se tinha medo das surras que a mãe lhe dava, passou a não ter. Também não ligava mais para o que a mãe dizia. Foi expulso do grupo escolar.

Sem ter o que fazer, Marquinho passou a roubar ainda mais. Começou a fazer gavetas, gíria para roubar dinheiro de caixas registradoras.

– A gente ia em dois, pelo menos, e entrava numa loja. Enquanto um distraia o dono, o outro abria a gaveta e levava todo o dinheiro. Aí fiquei muito conhecido: sempre que alguém roubava uma loja, alguém comentava: foi o Marquinho. E a polícia ficou na minha bota.

Perseguido, o menino passou a dormir fora de casa. Em casa de amigos, no mato ou na favela. Foi quando começou a freqüentar as favelas: primeiro a favela do 10, depois a do Piqueri. Naquela época Marquinho tinha 15 anos, e ficou conhecendo Gerson.

– O Gerson, aquele que apagou o CD (classe distinta da Guarda Civil) lá no Ceasa.

Foi em uma noiteem que Gersone Dácio estavam juntos. Os dois discutiram com o guarda e Gerson o matou. A polícia soube, prendeu o Dácio e o fez assinar inquérito de assassinato.

Depois, na rua, Dácio procurou Marquinho.

– Soube que foi você que me dedou – disse. – Vou acertar o seu passo.

Houve muita discussão, Dácio uniu–se a Dorival – outro companheiro da favela – e os dois resolveram dar uma lição em Marquinho.

– Eles quiseram me arrumar uma escama. Me convidaram para um passeio de carro, num táxi. Eu fui, porque não sabia de nada. Os dois tiraram a minha máquina e disseram que iam dar uns tiros na minha perna.

Ele conseguiu fugir, arrumou dois revólveres e foi para a favela do Piqueri, esperar Dácio e Dorival. Esperou a noite toda, escondido atrás de uma barraca. Dorival chegou às seis horas da manhã e desceu por uma das picadas da favela. Tranqüilo, tinha as mãos no bolso. Marquinho surgiu em sua frente.

– Vem vindo, Dorival, não tire as mãos do bolso e venha aqui trocar uma idéia.

O garoto apontava dois revólveres para Dorival. Quando este fez um movimento para levantar uma das mãos, Marquinho atirou.

– Fechei ele. O tiro pegou bem no bobo. Ele ia atirar em mim, tinha uma máquina no bolso.

Marquinho tinha então 17 anos. A polícia aumentou a perseguição a ele.

– Muitas vezes tive que ganhar o pinote atirando. Todo mundo me procurava, em casa ou na favela. Uma noite cercaram o barraco em que eu estava dormindo, eu, o Sizé e o Luís Neguinho. Acordei e vi o Sizé agachado no meio do barraco, batendo sujeira. Olhei para fora e vi os cachorros de Vila Mangalô.

Quando os investigadores entraram no barraco, Marquinho pulou pela janela, pisou na cabeça de um deles e escapou. E escapava sempre, até que o investigador Ubirajara, da equipe 8 da Delegacia de Roubos do DEIC, foi buscá-lo. O menino estava com dois revólveres e tentou fugir, mas Ubirajara o chamou:

– Marquinho, não precisa correr. Vamos trocar uma idéia.

E lhe disse que não havia sujeira, queria só conversar. E, para provar, tirou o revólver que usava e guardou no carro. Marquinho parou para pensar, disfarçou, jogou um revólver no chão e escondeu o outro. E foi lá, trocar a idéia.

Bira – é como ele chama o investigador – levou-o à delegacia de Vila Mangalô e o fez assinar uma sindicância pela morte de Dorival. E o soltou.

– Depois disso não tive mais broncas, o processo está correndo, mas acho que não vai dar nada. Eu era menor

Agora Sizé é o amigo que não o deixa. Chama–se Sigisfredo da Silva e tem 20 anos. Também conheceu Marquinho na favela. Os dois estão conversando, ouvindo um radinho de pilha.

– Não há nenhuma bronca conosco agora. Mas a gente continua fazendo umas gavetas e dando roupa para batedores de carteira. Esse radinho nós mandamos agora há pouco. Já está quase na hora da gente começar a trabalhar

Trabalhar, para Marquinho, é pegar o trem da Sorocabana que vai a Itapevi e Osasco. É lá que eles fazem pequenos grupos, dentro do trem, para distrair os viajantes enquanto os batedores de carteira agem. Ganham comissão, claro.

E para divertir–se? Marquinho joga futebol com os amigos – é meia-esquerda do Glorioso, um time da Brasilândia – e dança. Todos os sábados e domingos, num pequeno salão do Rio Verde, um clube de futebol. É lá que vão as meninas da favela, é lá que vai a Neide, a namorada dele.

– Namorada? – pergunta rindo. – Eu não tenho namorada nem mulher certa. É só zoeira.

– Namorado? – pergunta Neide, uma menina de 17 anos. Marquinho não pode namorar comigo, minha irmã não deixa.

Neide também é da favela, assim como Cristina, sua amiga de 16 anos. As duas moram no barraco de uma irmã de Neide e ganham dinheiro à noite, na prostituição. A namorada (?) de Marquinho tem um filho de um ano. O pai da criança está preso.

– Futuro? Eu não penso no futuro. Só quero roubar bastante, porque trabalhar não é comigo. Estou acostumado a dormir até meio-dia, não quero dureza. Comigo é no meio expediente (Marquinho).

– Futuro? Minha irmã tem um futuro: diz que no ano que vem sai da favela. O meu é outro: o pai do meu filho disse que quando sair da cadeia vai me matar (Neide).

– Futuro? Eu sei qual vai ser meu futuro: qualquer dia destes acabo levando um tiro de alguém (Cristina).

(Essas entrevistas foram feitas em duas etapas. A primeira, em um princípio de tarde, em um terreno da Vila Nova Cachoeirinha, onde estavam Marquinho – manipulando sua máquina 38 – e Sizé, apresentados ao fotógrafo Iwane Yamasaki, que me acompanhava, pelo investigador Ubirajara – o mesmo que levou o garoto à delegacia. E a segunda em um sábado à noite, no clube em que os garotos dançavam.

Marquinho e Neide com os rostos colados.)

Os homens conquistam a lua, o grande deus Kamayurá

(Escrita no Xingu para o Jornal da Tarde, publicada em 21 de julho de 1969, quando os primeiros homens chegaram à Lua)

A Lua não é a Lua. Para os Kamayurás, ela é Yaí, o poderoso deus que criou e deu força aos homens. Os Kamayurás, que vivem no Parque Nacional do Xingu, em cinco grandes malocas, são filhos diretos de Yaí. A Lua também lhes deu o arco, a flecha e a sabedoria para a caça. Depois, ela subiu para os céus, seguida por espíritos maus e animais selvagens. Quando há eclipse e escurece a Lua, os Kamayurás rezam por seus mortos.

Hoje, os índios Kamayurás, do grupo Tupi, não vão rezar para Yaí, a lua. Eles nem mesmo cantarão para ela, como ensinou o bravo Araútará, o único índio que chegou ao céu e voltou para contar a seus irmãos o que viu. E Araútará os ensinou a cantar, durante os eclipses, para afastar de Yaí aqueles maus espíritos e animais selvagens.

É por causa desses animais e dos maus espíritos que os Kamayurá não cantam ou rezam hoje. Para que eles não se afastem do céu. Porque são eles que vão defender Yaí, a lua, dos caraíbas, os homens brancos.

– E os caraíbas não vão nunca voltar de lá.

É o que dizem os dez pajés Kamayurás. É o que diz Wahú, o grande pajé. Os índios da tribo não cantam ou rezam hoje, mas os seus pajés vão se reunir como se reúnem todos os dias para falar de Mautsiní ou Kwat, o sol, e de Yaí a lua.

– Quando o sol estiver assim, a reunião começa.

Para Tuvulé, o cacique, quando o sol estiver assim, e ele mostra um ponto no céu, significará que a noite está chegando, que o sol começa a esconder-se atrás das águas do grande lago que fica ao lado da aldeia. Quando sol estiver assim, os pajés sairão de suas malocas, prepararão seus grandes cigarros; depois, ao lado do cemitério, que fica no meio do círculo formado pelas malocas, cercado por vários pedaços de madeira pequenos, eles se sentarão ali e começarão a relembrar, enquanto fumam, as suas histórias – as histórias dos caraíbas, os homens brancos, e dos Kamayurás. Estas são também as histórias do sol e da lua, os seres que criaram os homens.

* * * * *

Foi no tempo em que os bichos eram gente. E o onça tinha duas mulheres, que eram duas irmãs. Uma delas estava esperando criança, e por isso não trabalhava, enquanto a outra ia para a roça, com o marido. Um dia a mãe do onça perguntou:

– Quem é que vai catar meus piolhos?

A mulher que esperava criança disse que ela faria isso, porque sua irmã e o onça não estavamem casa. Mas, ninguém sabe por que, as duas mulheres brigaram e a mãe do onça matou a mulher de seu filho. Depois fugiu para o meio do mato. Quando o onça chegou com a outra mulher, e os dois viram a morta, ele falou:

– Precisamos chamar a formiga para ela tirar a criança que ia nascer.

Vieram três formigas: Takutaku, Tanahã e outra, de que ninguém sabe o nome. Elas tiraram duas crianças da mulher do onça, antes que ela fosse enterrada, e as penduraram no teto da casa, em duas cestas. No outro dia, as cestas começaram a balançar e o onça chamou as formigas, para colocarem seus filhos no chão. As formigas vieram, desceram as crianças e mandaram o onça e a mulher para outro quarto, para que não as vissem.

– As crianças ainda não andam – disseram as formigas. – Por isso nós as penduramos outra vez.

Dias depois, quando voltaram da roça, o onça e sua mulher viram pequenas marcas de pés no chão da casa. – É das crianças – disseram – mas nós ainda nem sabemos se são homens ou mulheres.

No outro dia deixaram peneiras e colares no chão, para ver se as crianças pegavam. Não pegaram. O onça deixou então dois arcos e duas flechas, porque, se as crianças viessem buscá-los, ele saberia que eram homens. O onça se escondeu e ficou olhando: as crianças desceram, levaram os arcos e voltaram para buscar as flechas. Mas então o onça chegou e disse:

– Fiquem aqui no chão, que é melhor que nas cestas.

As crianças eram homens. Eles não voltaram para as cestas e o onça deu–lhes nomes: Tapé e Tapé–Akaná. Um dia os dois se encontraram com uma cigarra e ela lhes perguntou os nomes. Quando eles responderam, ela falou:

– São muito feios. De hoje em diante vocês se chamarão Kwat, o sol, e Yaí, a lua.

* * * * *

Os pajés, sentados no cemitério, estão ouvindo Wahú falar. Ele está com 45 anos agora. Seu pai, que era o principal pajé, tinha 85 e morreu há quatro meses. Ele se chamava Muriti, e a terra do pequeno cemitério ainda não escondeu os sinais de sua cova, onde ele foi enterradoem pé. Foi Muritiquem contou a Wahú todas as histórias, como esta que o filho repete agora.

Wahú é magro, alto, usa apenas um cinto feito de caramujos. Sua pele é muito escura, queimada de sol, seus cabelos pretos cortados em franjas desiguais, caídas na testa, quase escondendo uma ruga permanente entre as sobrancelhas, logo acima dos olhos muito puxados. Seus pés estão sempre arrastando no chão, como a limpá-lo, e isso forma um círculo à sua volta. Ele fala gesticulando, esticando as palavras, sorrindo.

* * * * *

Kwat, o sol, e Yaí, a lua, viveram com os pais durante muitos anos. Um dia os dois foram buscar amendoim na roça de um passarinho, e este veio conversar com eles:

– Vocês chamam de mãe a mulher errada – disse ele. – Sua mãe de verdade morreu há muito tempo. Foi sua avó quem a matou, e depois fugiu para o mato.

As duas crianças choraram muito, até que seu pai, o onça, veio perguntar o motivo do choro. Kwat e Yaí quiseram saber onde estava enterrada a mãe e, quando o pai mostrou, os dois começaram a cavar, chorando e gritando: – Mãe, mãe.

– Vocês não podem tirar sua mãe daí – disse o onça.

– Mas nós queremos que ela viva mais.

Quando os dois viram que a mãe não poderia voltar a viver, eles a enterraram outra vez, só que de outro jeito:em pé. Eas crianças cortaram muitos pedaços de madeira, que colocaram cercando a cova.

(– É por isso – diz Wahú – que até hoje os cemitérios Kamayurás são cercados de madeira, e nós enterramos nossos mortos em pé ou sentados.)

Kwat e Yaí quiseram fazer uma grande festa para a mãe morta, e chamaram um garoto que conheciam, para que ele fosse convidar os peixes. Alguém que vai convidar outra pessoa para uma festa é o pareat. O pareat foi ao Mirená, o paraíso, e convidou os peixes para a festa da Lua e do Sol. E os peixes começaram uma viagem de 10 dias até o lugar da festa. Dormiram em várias aldeias: no Maracutaví, no Yacaré e no Mariwahet, onde alguns desistiram da viagem e ficaram morando.

(– E é por isso que está dando muito peixe no Mariwahet – explica o pajé).

Um índio chamado Katsiní estava pescando na margem do rio que os peixes iam subindo para a festa. E ele ficou muito curioso, vendo todos eles nadando na mesma direção. Um peixinho de rabo vermelho, chamado ararapirá, virou-se para Katsiní e perguntou:

– O que você está fazendo?

– Estou pescando – ele respondeu.

– Você pensa que isso é peixe? – perguntou o ararapirá. – Isso não é peixe, é gente, e nós estamos indo para uma grande festa. Quer vir à festa também? Katsiní respondeu que não podia, que teria que avisar a família, se fosse. Ararapirá insistiu: – Vamos sem avisar mesmo.

Katsiní disse que não, não iria. Mas o ararapirá jogou um pouco de água no rosto de Katsiní e este caiu dentro do rio. Dentro da água, junto com os peixes, o pescador continuou a respirar como se estivesse na terra. E continuaram a viagem, juntos, para a grande festa.

* * * * *

São cinco malocas que formam a aldeia Kamayurá. Cinco malocas, com dez famílias em cada uma, e uma pequena casa, de palha, como as outras, e que fica em frente ao cemitério – é nesta casa que os Kamayurás se pintam para suas festas. Os 125 índios da aldeia vivem no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, a aproximadamente500 quilômetrosde Cuiabá e 3.200 de São Paulo. O Parque Nacional ocupa uma área de23.000 quilômetrosquadrados, em toda a região do Rio Xingu, e foi fundado por Leonardo Villas Bôas em 1961. Antes disso, porém, os irmãos Villas Bôas já andavam por aquela região, pacificando muitas aldeias de índios. Eles conhecem os Kamayurás há muito tempo, nem mesmo o cacique Tuvulé sabe dizer quantos anos.

– Quando eu nasci minha aldeia já estava aqui, perto do lago. E todos conheciam os Villas Bôas.

Tuvulé está com 25 anos. É um índio muito forte – as pessoas que procuram os Kamayurás para estudar-lhes a língua e os costumes dizem que é o mais bonito da região. A mulher de Tuvulé chama–se Yamuni, e eles têm duas filhas: Tamakut, de dois anos, e Kapanaí, de três meses. A pele de todos é escura, vermelha, muito mais vermelha pela mistura de pó de urucum e óleo de pequi, duas plantas que eles passam pelo corpo para evitar os mosquitos, do que pelo calor do sol.

O cacique Tuvulé não toma parte na reunião dos pajés, no cemitério, mas ele fica ao lado deles, escutando o que dizem.

* * * * *

Katsini, o pescador, e os peixes, continuaram sua viagem até que chegaram a uma grande cachoeira. Cari, um dos peixes, disse que conseguiria pular por cima dela. Preparou-se, deu um grande pulo, não conseguiu alcançar o rio, lá no alto, e caiu atrás de uma pedra.

(– Por isso – diz Wahú – os caris moram embaixo das pedras até hoje.)

Outro peixe veio, conseguiu abrir a cachoeira e todos passaram. Passaram por cinco cachoeiras e chegaram à aldeia de Kwat e de Yaí. Na noite em que chegaram foi organizada uma grande dança, e todos dançaram até muito tarde. Depois ficaram esperando, porque no dia seguinte começariam as lutas, que faziam parte das festas. Até hoje os kamayurás, em suas festas, lutam o oyuwetik, como os peixes fizeram na festa do Sol e da Lua.

E Yaí, a lua, foi o melhor de todos os lutadores. Os peixes evitavam lutar com ele, preferiram lutar com Kwat, o sol. Mas todos apanhavam dele também. Até que mwikapit, um dos peixes, desafiou o Sol. A Lua avisou seu irmão: – Cuidado com mwikapit, ele é perigoso.

Mwikapit bateu no Sol até que ele caiu desmaiado. Quando voltou a si, a Lua lhe disse que as lutas haviam terminado. As danças, porém, continuaram, e os peixes pintaram-se todos para elas, como ainda estão pintados até hoje. Depois que terminou a festa Kwat e Yaí resolveram criar os Kamayurás e os caraíbas – os homens brancos.

Os dois foram feitos com pedaços de madeira que o Sol e a Lua cortaram das árvores – os caraíbas foram feitos de madeira branca, os Kamayurás de madeira vermelha. Os outros índios do Parque – Txucarramãe, Kayabi, Juruna, Suyá e muitos outros – foram feitos de pedaços de cobra, e é por isso que eles furam os lábios e as orelhas.

O Sol e a Lua tinham um companheiro – Aganimaní – e este tinha inveja dos dois, porque não sabia fazer nada. Ele ficou com muita raiva dos caraíbas e dos Kamayurás. Depois que os brancos e os índios foram feitos, o Sol e a Lua trouxeram arcos, flechas, revólveres e carabinas e mostraram a eles.

– Escolham o que quiserem – disseram os dois aos caraíbas e aos Kamayurás.

Os revólveres e carabinas eram muito velhos e feios, e os arcos e flechas eram novos, pintados de preto. Foi por isso que os Kamayurás os escolheram, e os caraíbas ficaram com as armas de fogo.

(Por isso – diz Wahú – os brancos ainda usam revólveres e os índios usam arcos e flechas.)

Kwat e Yaí não ficaram contentes com os Kamayurás quando eles escolheram os arcos. Mas deram uma ordem aos caraíbas:

– Vocês vão para longe daqui, porque escolheram as armas. Os Kamayurás ficam, porque pegaram arco e flecha.

* * * * *

Kwat e Yaí quiseram que os caraíbas e os Kamayurás não morressem nunca. E organizaram uma festa, que se chamou Kuarup, na qual fariam viver três pedaços de madeira, para que todos aprendessem a fazer a mesma coisa com as pessoas que morressem. Mas colocaram cocares e enfeites de penas nos pedaços de madeira, os mesmos enfeites que os Kamayurás usam agora. E os dois, Sol e Lua, começaram a cantar.

Os pedaços de madeira começaram a ganhar vida: mexeram a cabeça e os braços. E, como estava difícil, o Sol pediu aos Kamayurás que fossem para suas malocas, que eles iriam continuar sozinhos a dança. Quando os índios saíram, e a madeira já estava quase gente, Awanimaní, o companheiro de Kwat e Yaí, que tinha inveja deles, apareceu e estragou tudo. Ele chegou perto e as madeiras voltaram a ser o que eram.

(– Por isso – diz Wahú – até hoje ninguém mais volta depois de morto. E nós continuamos a fazer o Kuarup todos os anos, mas é só por sentirmos saudades dos nossos mortos).

Quando os Kamayurás começaram a comer carne, foram Kwat e Yaí que entraram na mata e trouxeram macacos e um pássaro chamado jacubi para eles. Assim começou a caça. Um dia, um índio que não conseguia caçar nada foi atacado por seus companheiros, porque ele só comia e não matava animais. Os Kamayurás cortaram os seus pés e suas mãos e o deixaram na floresta, para morrer. Yaí apareceu, colou os pés e as mãos no índio e o salvou.

(– Foi isso – conta o pajé – que fez com que a gente tenha juntas nos pés e nas mãos).

Mas, como naquele tempo os bichos eram gente, eles se revoltaram contra o Sol e a Lua, que os matava para os Kamayurá comer. O Sol e a Lua, então, fizeram um grande número de flechas, que espalharam pela floresta: eles iam transformar as flechas em gente e depois desaparecer da Terra. Levariam também, junto com eles, um grande número de animais selvagens, para protegê-los: levaram grandes caranguejos e sapos venenosos, onças bravas, uma grande cobra e muito gelo.

Um índio viu tudo isso: foi Arautará, o bravo. Ele vivia entre os Kamayurás e tinha um grande amigo; os dois fizeram um trato:

– O primeiro que morrer volta e leva o outro para ver como é.

O amigo de Arautará morreu e veio buscar seu companheiro em uma noite de eclipse. Levou-o vivo para o céu.

– Lá – contou Arautará quando voltou para sua tribo – existem muitos bichos e maus espíritos. Eles, durante os eclipses, atacam nossos irmãos que já morreram. Eu peguei uma grande taquara, fiquei batendo nela e espantei todos.

(– É assim a cerimônia que fazemos até hoje – conta Wahú, o pajé. – Pegamos o imuitotó, a grande taquara, e também um chocalho, e ficamos batendo neles, nas noites de eclipse, para afastar os maus espíritos e os animais que atacam nossos mortos. Hoje, os bichos e os espíritos estão atacando os caraíbas na Lua, e nós não cantaremos para que eles se afastem.)

* * * * *

Foi Orlando Villas Bôas, o sertanista, quem contou aos Kamayurás que os homens iriam pousar na lua. Os índios ouviram tudo em silêncio, até que Wahú falou:

– Os caraíbas não voltam de lá.

Maipu, o filho de Wahú, ouviu as palavras do pai. Mas afastou-se depois, porque para ele ainda não é tempo de conhecer essas histórias – Maipu tem apenas 16 anos. Ele só poderá saber de tudo quando os jovens de sua idade, na aldeia, estiverem preparando-se para casar. Então eles sairão com os pais, para aprender a caçar – diz Tuvulé, o cacique. – Maipu, antes disso, aprenderá a ser pajé.

* * * * *

Kwat, o sol, e Yaí, a lua, espalharam as flechas pela floresta. Depois os dois começaram a subir, abandonando a Terra. E disseram:

– Flechas, transformem-se em índios. E apareçam os bichos.

Os animais, que eram gente, transformaram-seem bichos. Ehoje os macacos, os jucuaçus, as antas e os porcos do mato são caçados pelos Kamayurás, que também pescam todos os peixes.

– Kwat e Yaí, que são gente – diz Wahú – subiram para o céu. E estão lá, brilhando, até hoje.

(Aproximadamente um mês antes de chegar ao Xingu procurei o sertanista Orlando Villas Bôas em São Paulo e disse a ele o objetivo da reportagem: mostrar o que significava, para os índios brasileiros, a chegada do homem à lua. E o resultado foi esta lenda que, para os Kamayurás, explica a criação da vida no planeta depois do tempo em que os bichos eram gente.

A história me foi contada alternadamente por Wahú e Tuvulé, o cacique, parte à sombra de um grande pequi, em frente ao posto da FUNAI, parte na própria aldeia, ao lado do cemitério cercado por tocos de madeira fincados no chão.

Fui recebido lá por Cláudio, o terceiro dos Villas Bôas – Orlando chegaria mais tarde, dois dias antes de minha volta. Foram 10 os dias em que tive a felicidade de viver naquele fascinante mundo do Xingu.)

Rua Cuba

(Texto para o Jornal da Tarde, publicado em série em janeiro de 1989)

 

Capítulo 1

TIROS NA SALA

   Poderia ser apenas uma desculpa de namorado, uma menti­rinha sem importância, afinal ela conhece até mesmo o jeito que ele tem ao mentir. Sim, Flávia estava apaixonada por seu namorado Ginho, e Flávia apaixonada é moça muito exigente, muito insistente, não admite nada menos que dedicação total. Sabia perfeitamente que às vezes ele queria desligar o telefone, mas não permitia.

Como agora, nesta véspera de Natal, poucas horas antes de dois assassinatos e uma das mais terríveis tragédias familiares re­gistradas na história policial de São Paulo.

O pai estava mesmo com um cliente, como Ginho afirmava, ou era apenas uma desculpa para dizer que não podia vir vê-la? No dia seguinte, quando ele não tocou no assunto, ela calculou que tinha 99,99% de certeza de que havia sido apenas uma des­culpa. Restava 0,01 % de dúvida. Mas agora duas pessoas estavam mortas, e Flávia achou que tudo deveria ser dito à polícia. Este foi apenas um detalhe no curso das investigações, e continua apenas um detalhe no longo processo que tramita hoje pela Quinta Vara do Foro Regional de Pinheiros.

Rua Cuba 109, Jardim Paulistano, sexta-feira, antevéspera do Natal de 1988.

O casal Bouchabki, Jorge e Maria Cecília, seria assassinado nesta madrugada, com quatro tiros. Mas quem adivinharia isso agora, logo após o Jornal Nacional e uma importantíssima se­qüência da novela Vale Tudo? Quatro tiros espocaram na sala. Apresentavam-se cenas do capítulo seguinte e Odete Roitman morria fuzilada no vídeo da Globo.

A família reunida – os Bouchabki pais e filhos – acabava de ver o crime e preparava-se para visitar o Dr. Halen, embora, a princípio, o passeio não estivesse no programa daquela noite. Jorge ligara para o amigo apenas para combinar um encontro. “À que horas posso encontrar vocês aí amanhã?”, perguntou alegre­mente. Mas o médico respondeu com um convite: “Venham agora mesmo, vamos comer um pedaço de pizza”. Eles já haviam jantado, mas Jorge concordou.

A primeira a desistir foi Maria Cecília: ela preferia ficar em casa, pois precisava dar os retoques finais na árvore de Natal, ali ao lado, e trazer os presentes que estavam em seu quarto. Depois foi Marcelo, que teve uma discussão qualquer com Graziella, sua irmã, e disse que se ela fosse à casa do doutor Halen ele não iria – coisa de criança: Graziella estava com dez anos, Marcelo com catorze. O pai não gostou muito, mas disse que iria com Jorgi­nho, 18 anos, o filho mais velho, e Graziella. Azar de Ginho, que não contava com essa: queria ir à casa de Flávia, a namorada, e sair com ela para um passeio.

Ele subiu e ligou para Flávia de seu quarto. Avisou que tornaria a ligar mais tarde, que o plano para a noite continuava o mesmo.

(O casal Jorge Toufic Bouchabki, 45 anos, e Maria Cecília Delmanto Bouchabki, 40, achava esse comportamento avançado demais, o que incomodava principalmente à mãe – Ginho tinha até as chaves da casa da namorada. “Tome cuidado”, recomendava Jorge. Agora, com o vestibular em curso, os pais haviam in­sistido em que ele reduzisse essas visitas e estudasse mais. Mas amanhã seria véspera de Natal, e Ginho achava que, sendo assim, tudo bem. Só que ele ainda teria que pedir permissão ao pai, o que estava deixando para mais tarde.)

Antes de sair Ginho programou o videocassete, na sala, para gravar o Globo Repórter, que tinha um especial de fim de ano sobre os Trapalhões. Graziella havia lhe pedido para gravar e ele gostou da lembrança, porque também queria ver o programa.

Os três chegaram à casa do doutor Halen Chati, na Rua José Maria Lisboa, Jardim Paulista, pouco depois das 21h40. Abraça­RAM-se, trocaram cumprimentos, Ginho trazia uma caixa de vi­nho como presente – os Chati e os Bouchabki conheciam-se há mais de dezoito anos, e Halen tornara-se o médico da família.

– Por que Maria Cecília não veio?

– Infelizmente não pôde sair.

O doutor Halen lembraria tristemente, depois dos crimes, que aqueles foram momentos agradáveis – Jorge e os filhos saíram de lá depois das dez, e a conversa girara em torno do Natal, com algumas palavras sobre a pequena Graziella, que tem um problema cardíaco e é a preocupação da família. Halen sabia que Jorge recebera naquela tarde o resultado de um exame de saúde da filha, mas como ele não tocou no assunto, o médico resolveu não perguntar. A alegria aumentou quando Jorge con­tou que Ginho havia sido aprovado na primeira fase da Fuvest.

Ainda não eram onze horas quando voltaram ao 109 da Rua Cuba. Os presentes já estavam na árvore de Natal, à esquerda da escada que leva ao andar superior. Maria Cecília os havia embru­lhado lá em cima e Marcelo os trouxera. Ginho foi desligar o vídeo, enquanto seu pai e Marcelo subiam para colocar os pija­mas. No canal 9, Osmar Santos entrevistava a modelo Marcela Prado, depois de conversar com Miéle e os integrantes da Banda Reflexus. O pai e o irmão desceram e sentaram-se para assistir também, quando Ginho voltou a lembrar-se de Flávia. Subiu ao quarto para telefonar.

Foi em dezembro de 87 que ela recebeu o primeiro telefone­ma. A casa do pai estava passando por uma reforma e Flávia foi morar com a avó, na Rua Martinica, 49, uma pequena travessa ligando a Rua Cuba à Avenida Nove de Julho. O pai também fora para lá, pelo menos para trabalhar – ele havia montado um escri­tório em um dos cômodos da casa.

O rapaz ao telefone dizia chamar-se Jorge, 17 anos, e naque­le jeito meio brincalhão, meio sem–jeito, dizia que era seu fã. Contava que já há algum tempo vinha reparando nela, ali no bairro.

– Você estava usando uma blusa azul outro dia, lembra-se? E lembra aquela batida de carro perto de você, dois anos atrás? Está vendo? Há muito tempo que ando ligado em você.

Contou que estudava no Anglo, na Rua Sergipe, fazendo cursinho para tentar Medicina ou Engenharia, e disse por fim que seu nome completo era Jorge Delmanto Bouchabki, mas que to­dos o chamavam de Ginho.

– Que tal se a gente se encontrasse para bater um papo?

Flávia Cardoso Soares, 16 anos, havia “terminado” com o antigo namorado há poucos dias – talvez o Jorginho soubesse disso, e resolveu ligar para ela.

Bem, um encontro, por que não?

Estiveram juntos no dia 20 de janeiro de 88, uma quarta-fei­ra, mas começaram o namoro na segunda-feira seguinte, 25 –­ Flávia não esqueceria, pois afinal aquele ficou sendo “o dia deles”. Jorginho sabia muito mais sobre ela, lembrava histórias de dez anos atrás, e até provocou dúvidas: será que eram lembranças mesmo? Ou ele andou recebendo informações do Fidelcino e do Ivan, vigilantes das Ruas do bairro?

O namoro começou firme: os dois encontravam-se todos os dias, estudavam juntos, passeavam juntos. Ele logo recebeu dela uma chave da casa da Rua Martinica, e também do apartamento térreo da casa que estivera em reforma na Rua Veneza 126, aparta­mento que dividia com a irmã mais velha, Sílvia. A avó morava na Rua Martinica, o pai na Rua Veneza, e Flávia têm um quarto lá e um apartamento aqui, ao lado da casa principal.

Estavam agora com 18 anos ele, 17 ela. No dia 23 de dezem­bro de 1988, véspera dos crimes, ele foi buscá-la no Monza bran­co do pai pouco depois das cinco da tarde, como haviam combi­nado.

Ginho abriu a porta do carro um pouco antes, na Rua Cuba, para Maria da Penha Bouchabki Zgaib, 27 anos, sua prima. Feliz, Maria da Penha, nascida em Vitória, Espírito Santo, morando com os Bouchabki desde 1981 – é psicóloga, trabalha na Rua Álvaro Rodrigues, Brooklin – ia para a Rodoviária embarcar para sua cidade, onde passaria o Natal. Em férias, sairia de Vitória em companhia da mãe, a 16 de janeiro, para uma excursão pelo Nordeste. Voltaria a Vitória para o carnaval.

Já em Vitória, ligando para São Paulo às duas horas da tarde do dia seguinte, ela ficaria sabendo que seus tios haviam sido assassinados.

(Esta história completa está no livro HISTÓRIAS QUE OS JORNAIS NÃO CONTAM MAIS, da Belaletra Editora)