A Innisfree de John Ford

(Texto para o Caderno 2 de O Estado de S. Paulo, publicado em 14 de agosto de 1991)

CONG – Um dia um sujeito chamado Minnelli, Vincente Minnelli, fez um filme com o nome de Brigadoon. Uma bela história: dois caçadores viajam pela Escócia e encontram uma pequena vila que vive um dia em um século. Em Brigadoon, quando as pessoas dormem à noite e acordam pela manhã, um século se passou. Claro: tudo truques, tudo coisas do cinema. Mas lá, naquela pequena vila, eles são incrivelmente felizes um dia a cada cem anos.

Conheco uma história melhor. Outro sujeito – seu nome era Ford, John Ford – fez um filme em uma vilazinha na Irlanda chamada Innisfree (ou Cong?). Cong (ou Innisfree?) vive todos os dias do ano, todos os anos, e é feliz – absolutamente feliz – três meses em 12. Nos outros nove, tem problemas. Em Cong – que John Ford chamou de Innisfree – todos os dias, às cinco da tarde, um grandalhão desce de um trem e, poucos minutos depois, apaixona-se por uma ruiva lindíssima que vê em um belo campo verde conduzindo ovelhas. O nome do grandalhão é John Wayne. O da ruiva, Maureen O’Hara. No filme – que teve o título original de The Quiet Man, O Homem Calmo, e no Brasil foi chamado de Depois do Vendaval, Wayne era Sean Thorton e, Maureen, Mary Kate Danaher.

Disse que em Cong – ­uma vila que os irlandeses mais modestos dizem ter 200 habitantes, e os falas­trões garantem 250 – isso acontece todos os dias, pontalmente, às cinco da tarde. Existe um castelo medieval em Cong, o Ashford Castle, atualmente um hotel, que exibe, em seu sistema interno de vídeo, diariamente, às cinco, o The Quiet Man. A Irlanda é um país que vive quatro horas à frente do Brasil. Portanto, os apaixonados pelo bom cinema já podem ficar sabendo que, quando nossos relógios marcam uma da tarde aqui, o trem apita lá em Cong (Innisfree), e o grandalhão desce.

Como é bonita essa história que está sempre recomeçando… E aqui já não falo apenas em Maureen O’Hara e John Wayne, mas também de todos aqueles que viveram e vivem o filme, e que aparecem, ou não, na tela. Falo do senhor O’Murphy, da simpática Vera O’Connor, de Stephen Lydon, o pescador, de Ena Flynn, a adorável velhinha que me brindou com uma torrente de palavras (co­mo falam esses amáveis irlandeses…) para contar que tal cena foi filmada aqui, a outra lá, e que aquela casinha ali, com vasos de flores nas janelas e na calçada, é a mesma em que vivia o velho senhor Dan Tobin (Francis Ford), que praticamente ressuscitou para assistir à luta entre John Wayne e Victor McLaglen.

Falamos do grandalhão, Wayne, e é preciso falar mais. No filme ele chega a Cong – nasceu ali – para comprar a casa de seus pais e viver nela. Vê Mary Kate no cami­nho, e até duvida do que viu. “Puxa, aquilo existe? Não pode ser”, pergunta ao cocheiro, Michaelenn Oge Flynn, o engraçadíssimo ator Barry Fitzgerald, que responde “Ora, bobagem homem. Ela é apenas uma miragem trazida pela sua terrível sede”.

Não vou contar a história, é claro, porque vocês certamente vão querer vê-la em vídeo. Ficam aqui apenas alguns pontos, para que todos saibam do que estará falan­do o povo de Cong no momento em que lhes passar a palavra: John Wayne/Sean Thorton apaixona-se por Maureen O’Hara/Mary Kate, como já disse, e encarrega o cocheiro Michaelenn (a pronúncia é Micalín), que é também o casamenteiro local, de pedi-la em casamento para ele. A resposta é não: Red Will Danaher (o ator Victor McLaglen), irmão de Mary, recusa. Segue-se então uma trama envolvendo o padre católico Peter Lonergan (Ward Bond), o pastor protestante Cyrill Playfair (Artur Shields), a viúva Tillane (Mildred Natwick) – por quem Will Danaher é apaixonado –, Michaelenn e muita gente mais.

Outro ponto importantíssimo da trama: o dote de Mary Kate. A história, filmada em 1951, retrata a Irlanda de 1920, quando os casamentos, lá – assim como em muitas outras partes do mundo –, eram também um negócio: o candidato a marido dizia o que tinha, tomava conhecimento do dote da escolhida e formalizava, ou não, o pedido. Os pais e, na falta deles, os irmãos mais velhos, respondiam pela noiva.

Disse, na introdução deste texto, que Cong é absolutamente feliz três meses em 12, e nos outros tem problemas. Explico: nos meses felizes –julho, agosto e setembro – é temporada de pesca na Irlanda, e Cong está junto a um lago internacionalmente conhecido co­mo um dos melhores para a pesca de salmão e trutta, o Lago Corrib. Nesses 90 dias ela fica repleta de pescadores que lotam os 80 apartamentos do Ashford Castle e aproximadamente uma dezena de pensões espalhadas por uma meia dúzia de ruas que formam a cidadezinha. Isso significa dinheiro. Cong vive do turismo – a pesca – e do que produz no campo, basicamente madeira. E aí está o problema: não há muito que fazer ali fora da temporada, e muitos têm de ir a outros lugares para conseguir trabalho. O que explica o pequeno número de habitantes: com a saída de seus filhos, a popução de Cong não cresce. Não fiquem, entretanto, muito preocupados com ela: os meses de felicidade compensam e, fazendo as contas, nota-se que é possível ganhar neles dinheiro suficiente para o resto do ano.

Conversemos então com habitantes reais da mágica Innisfree do diretor John Ford. Eles vão falar do Depois do Vendaval e vocês verão que, de fato, o filme ali ainda faz parte da vida. A senhora Joanne Gibbons falou de Michaelenn com um brilho de saudade nos olhos. Essas pessoas parecem sentir que, naquelas sete semanas do ano de1951, a história realmente aconteceu.

Revival

A senhora Joanne Gibbons é dona do The Quiet Man, o coffee-shop da cidade. Seu delicioso café irlandês – café, um pouco de uísque, açúcar e creme – é uma atração para todos em Cong, moradores e turistas. Para estes, entretanto, mais do que o café, são o nome da casa, as fotos do Depois do Vendaval espalhadas pelas paredes e a possibilidade de conversar com a senhora Gibbons sobre o filme o motivo principal da visita. Ela conta:

“Estou sentindo assim como que um revival do The Quiet Man de uns anos para cá aumentou o número de pessoas que vêm aqui por causa dele. Eu não estava aqui quando o filme foi feito, mas sei muita coisa porque meu marido me contou. Em 1951, o ano das filmagens, esta casa servia café, mas nem tinha nome, a placa dizia apenas Café. E a equipe de filmagem vinha sempre aqui e eles costumavam dizer ‘vamos lá tomar um café no café do Quiet Man’, e a coisa pegou. Mas foi só muito tempo depois, em 1982, que meu marido colocou a placa atual.”

Uma das fotos da parede mostra a charrete em que Mary Katee e Sean Thornton namoravam, mas a visão é estranha para quem conhece o filme: não é Barry Fitzgerald, o Michaeleen, que a dirige, e Mary Kate está ao lado, junto ao povo, observando atentamente a cena. O que é essa foto, senhora Gibbons?

Ela pega o quadro da parede, observa, diz que nunca havia prestado atenção nisso, pede licença por um minuto, atravessa a rua e vai para a loja do senhor Murphy. Volta em seguida, alegre:

“São os dublês”, explica. “É um ensaio para as filmagens. Todos tinham dublês, e o senhor Ford ensaiava com eles todas as cenas antes.”

“Se eu gosto de contar essas histórias? Gosto muito, mas às vezes não tenho tempo. Muitas vezes simplesmente digo aos turistas: vão passear pela cidade. Vejam tudo, olhem em volta e vocês verão o filme.”

 

Juventude

 

Geraldine Lynch, 20 anos, é bem um exemplo do que acontece com os jovens em Cong: juntou suas coisas e vai partir. Contou-me que viajaria para a Alemana na semana seguinte. Tem amigos na Alemanha e eles arrumaram trabalho para ela em uma floricultura.

“É difícil para a gente ficar aqui ­– quase não há trabalho, não dá para progredir. Nem para estudar: quem quer fazer o ginásio tem que ir a Ballinrobe, a algumas milhas. Para ir ao cinema a gente também tem que sair, tem que ir a Gallway, 28 milhas (42 quilômetros). Nossa diversão aqui é ir ao pub à noite.”

Em Cong, Geraldine trabalhava no Ashford Castle, e via o Depois do Vendaval em vídeo.

“Era o costume naquele tempo: Mary Kate não poderia se casar se o irmão não deixasse. Hoje, é claro, seria diferente.”

Relíquia

 

Pat McDonnel, 18 anos, tem um emprego muito especial: ele conduz os turistas pela cidade em – nada mais, nada menos – que a própria charrete com que Sean presenteou Mary Kate no Depois do Vendaval. Aposentada durante muitos anos, a charrete foi toda restaurada e hoje percorre as ruas de Cong como há 40 anos. Tem uma única diferença: a inscrição The Quiet Man na pequena porta. O que Pat acha do filme?

“Ele é muito bom em tudo, todo pedaço é bom. Nem dá para dizer se eram certos ou errados os costumes antigos, porque o filme é perfeito.”

Testemunha

A adorável senora Ena Flyn fala como todo bom irlandês… e como eles falam. Mas, mesmo para um irlandês, ela fala muito: chegou a responder a uma pergunta antes que eu a fizesse.

Por favor, senhora…

“Você viu o The Quiet Man?”, foi logo perguntando. E continuou, sem esperar pela resposta.

“Foi bem ali, naquela casa, que o velho morria na hora da briga. Aquela casa com as flores. Lá, naquela rua, John Wayne e Maureen O’Hara saíram para namorar. Foi lá também que eles fizeram aquela festa para o bispo. A briga foi mais para lá, perto do rio – ­ tem um lugar ali, bem em frente à abadia, em que Victor McLaglen caiu na água. O bar ficava na loja do Murphy; o senhor precisa conversar com ele, ele sabe mais do que eu, porque minha cabeça já anda esquecendo as coisas. E também com Vera O’Connor, e …”

(Cong está retratada acima. O que tenho de mais interessante para contar é como cheguei a ela. Livros sobre John Ford informavam que Innisfree ficava ao lado de Dublin. Outros, que Innisfree era Galway. Confiei mais nesta última informação, uma vez que os pais de Ford eram de Galway, e fui para lá. Engano: Innisfree era uma pequena vila e eu, em meu desconhecimento, fui surpreendido ao ver que Galway é, em padrões irlandeses, uma cidade grande – 74.414 habitantes no último censo, em 2006. Bem, já que estava lá, hospedei-me em um hotel para passar a noite e voltar no dia seguinte. À noite fui a um pub, um velho e simpático pub irlandês com um barman velhinho, cabelos todos brancos. Arrisquei: teria ele visto The Quiet Man, saberia onde foi feito? Claro que sabia – em Cong, a poucos quilômetros. Um táxi me levou lá na manhã seguinte.)

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O homem que matou Versace

(Escrito em 1998 para revista virtual Magazine, do Portal de O Estado de S. Paulo)

 

Andrew Cunanan era um garotão bonito, bem vestido, inteligente – QI 147 – bem relacionado e gay.

Nada a ver com o que se tornaria depois. O assassino compulsivo que passeou com o carro – para frente, para trás, para frente, para trás – até que o corpo de uma de suas vítimas virasse uma pasta.

Ou o homicida frio e determinado que esperou, pacientemente, que o estilista Gianni Versace fosse tomar um café, caminhou atrás dele quando voltava para casa e, com precisão cirúrgica, meteu–lhe duas balas na cabeça.

Aqueles foram os diasem que Andrewmergulhou no Inferno. E gostou. E como acontecia com tudo o que provava e gostava – roupas de grife, bons vinhos, drogas, pornografia, perversão e sexo – ele queria mais.

Andrew Cunanan foi um projeto detalhadamente planejado e executado por Andrew Cunanan. Ele não gostava da realidade à sua volta? Sem problema. Vamos mudar essa realidade.

Pois não foi o que fez com seus pais? A mãe, Mary Anne Shilacci, havia conhecido o pai, Modesto Cunanan, e se apaixonara por aquele marinheiro filipino de porte elegante e bigodinho à Errol Flynn. Mas quando Andrew nasceu, em 31 de agosto de 1969, o casal já tinha três filhos, Mary Anne descobrira que o seu Errol Flynn não era tão Errol Flynn quanto pensava, e Modesto passara muito tempo no mar para acreditar na fidelidade dela.

Na verdade, Modesto achava que uma das filhas não era dele. Acusada, Mary Anne entrou em crise de depressão e estava sob cuidados médicos. Quem criou Andrew foi o pai, e com muito orgulho. “Meu filho nunca chorou”, vangloriava-se ele.

Nunca chorou, e cresceu vendo e ouvindo as brigas terríveis entre a mãe e o pai. Muitas vezes não queria ouvir nem ver, e trancava-se em seu quarto, ligava bem alto a televisão e pronto, aquilo não estava acontecendo.

Era preciso dar umas pinceladas naquela realidade para que ela não chegasse aos colegas do colégio. Andrew havia aprendido, nas histórias em quadrinhos, que um insosso Clark Kent podia se transformar em um glamuroso Super-Homem. Por que não poderia acontecer o mesmo com seus pais? Pois ele cuidaria disso pessoalmente.

E foi assim que ele pintou, na escola, uma Mary Anne Super-Mãe e um Modesto Super-Pai. Os colegas precisavam ver, dizia, como os pais o tratavam. Mamãe vivia cercando-o de atenções e cuidados, fazendo comidinhas muito especiais para ele, e papai vivia dando-lhe isso e aquilo.

A princípio com inveja, depois com desconfiança, e finalmente desacreditando, os colegas passaram a rir dele pelas costas. Mas isso jamais abalaria Andrew Cunanan, porque ele não permitiria em hipótese alguma ser abalado. Riam pelas costas, mas Andrew Cunanan sabia de tudo. E iria tomar providências.

Por isso, certo dia, Super-Mãe chegou ao colégio, na hora do recreio, trazendo para ele um lanche de lagosta ainda fumegante. Os colegas viram aquilo enquanto mastigavam seus sanduíches de pasta de amendoim com geléia.

Andrew pegou o

martelo de amaciar carne e

estourou a cabeça do sujeito

Então Super-Pai decidiu dedicar-se aos negócios. Deixou a Marinha, fez cursos e conseguiu um certificado de corretor de valores. Mergulhando fundo na vida nova, extrapolava nas atenções com o filho predileto: Andrew era levado às lojas mais caras de Bonita, elegante bairro nos arredores de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos. Ganhava roupas de grife, vistosas, que exibia com a graça e arrogância de um manequim profissional.

Era gay e fazia daquilo um show. Dizem seus biógrafos que teve a primeira relação homossexual no início da adolescência. E como gostou! Gostou tanto que, ao invés de escondê-la, como seria normal em um garoto daquela idade, contou-a em detalhes aos colegas da escola. E a cada relação que mantinha, novo relato fazia, a quem quisesse ouvir. Naquela altura, só papai e mamãe não sabiam.

E os colegas – surpresa! – nem pensaramem incomodá-lo. Viviamperseguindo e provocando outros gays da escola, mas a Andrew não. Um deles contou que o achavam divertido, riam dele e com ele, era o cara mais engraçado do pedaço. Um gay tão assumido, tão feliz na sua homossexualidade, que ninguém se sentia agredido por ela.

Tinha apenas quinze anos quando passou a freqüentar os bares e pontos de encontro gays mais populares de San Diego. Então, mais uma vez, recorreu à síndrome do Clark Kent. Andrew Cunanan era um sujeitinho de origem filipina sem nenhuma graça? Ora, ele se tornaria um Super-Homem latino inteligente e cheio de charme.

Um Super-Homem só? E por que não dois? Transformar-se era um de seus hobbies prediletos: num estalar de dedos mudava o corte de cabelo, as maneiras, as roupas, os gestos. E assim Andrew DaSilva e David Morales, diferentes entre si, mas igualmente charmosos, elegantes, cheios de ironia e frases afiadíssimas, surgiram na comunidade gay. Foram muito cortejados. Davam muita atenção aos mais velhos, aos cheios da grana. Senhores de vida dupla, gays ao pôr-do-sol, mas que despertavam em camas king-size ao lado da mulher, e beijavam os filhos quando saíam para os negócios.

Aos dezoito anos, matriculado no curso de História da Universidade da Califórnia – os pais exigiam o estudo – Andrew era um garoto atraente e, sobretudo, caro. Um prostituto de luxo, disputado, com clientes no topo da sociedade. Muitos mantinham apartamentos secretos para encontrá–lo, davam–lhe cartões de crédito sem limite de gastos, e presentes como automóveis de trinta mil dólares.

Ele nunca teve um emprego, e é claro que Mary Anne e Modesto desconfiavam de todo aquele dinheiro, dos relógios caros, das roupas não menos. Quando perguntavam alguma coisa, Andrew desconversava, ou não respondia.

Mas os dois estavam mais preocupados com outro problema: Modesto falhara tremendamente na nova profissão, fora despedido de várias corretoras. Por fim, acabou abandonando a família e fugindo para as Filipinas acusado de um desvio de cento e seis mil dólares.

Pouco tempo depois Mary Anne flagrou o filho beijando um homemem San Diego. Discutiram, ele a agrediu, depois se desculpou. Seguiu-se um período tumultuado nas relações com a mãe, depois com o pai – Andrew foi dar um tempo nas Filipinas – até que ele, finalmente, desembarcou naquela que é a capital do orgulho gay norte–americano: São Francisco.

No acostamento,

Andrew cravou três

balas no cara ao lado

Em São Francisco, multiplicou e aperfeiçoou seus personagens. Sua criação de maior sucesso talvez tenha sido o jovem e sofisticado tenente Drew Cummings, da Marinha dos Estados Unidos. E na pele de Cummings, como na de vários outros, espalhou-se pelo Distrito de Castro, o bairro dos homossexuais, e também seu submundo, antro da barra pesada gay, lésbica, masoquista, sado-masoquista e drogados.

Um novo amigo, o advogado Eli Gould, colocou-o no paraíso que buscava: o exclusivíssimo mundo de Hollywood, com toda sua variedade de atores, atrizes, modelos, personalidades das mais variadas facetas, famosas ou em busca da fama. Aqui, neste glamuroso portal, teve um rápido encontro e um brevíssimo diálogo com alguém que jamais esqueceria: sua gay majestade, rei da alta-costura, Gianni Versace.

A nata daquela fauna estava reunida, depois de um espetáculo na ópera, em uma festa de gala na discoteca Colossus. A jornalista e escritora Maureen Orth registrou a cena desta maneira:

“O estilista entrou com sua corte particular, que logo o apresentou a algumas poucas pessoas. Depois de aproximadamente quinze minutos de ti-ti-ti, e do assédio de jovens ansiosos por conhecê-lo, Versace voltou-se para observar as pessoas que estavam na sala. Notou Andrew ao lado de Eli, cumprimentou-o com um inclinar da cabeça e caminhou na direção dos dois. ‘Eu conheço você’, disse a Andrew. ‘Lago di Como, não é’? Versace se referia à sua casa junto à fronteira suíça. Andrew estava maravilhado e Eli não acreditava no que via. ‘É verdade’, respondeu Andrew. ‘Obrigado por lembrar-se, signor Versace’.”

Era mentira. Ele jamais estivera lá, nem vira Versace pessoalmente antes daquela noite. Era óbvio que havia sido confundido com outra pessoa, mas podem apostar que nunca passou por sua cabeça desfazer a confusão.

No Distrito de Castro, Andrew Cunanan começou a chafurdar na lama. Foi introduzido, ou introduziu-se, entre os praticantes do sexo bizarro, das roupas de couro, dos chicotes, das torturas. Deixou-se empolgar pela dor. Era amarrado, chicoteado, esbofeteado e submetido aos mais pervertidos cerimoniais do sado-masoquismo – e adorava cada um deles. Aí juntou toda sua parafernália de objetos e práticas dos subterrâneos do sexo, gritou luz, câmara, ação, e entrou para o cinema pornô.

Por outro lado, à medida que mais se deixava violentar, foi ele próprio tornando-se violento, sádico, raivoso. Um de seus amigos contou ao escritor Joe Geringer que certa vez foi drogado por Andrew sem o saber. Ele colocou algo em seu copo e, quando a droga fez efeito, sua consciência se foi. Acordou horas depois, no apartamento de Andrew. E então sentiu dores, e viu, no próprio corpo, sinais de que havia sido submetido a coisas que fariam o Diabo feliz se estivesse lá.

Em 1994, quando completou 25 anos, era assim que vivia o senhor Andrew Multi-Personalidades Cunanan.

Terá sido um longo processo? Ou foi mesmo em 97, quando fez um teste de AIDS, não voltou para buscar o resultado, mas convenceu-se de que estava infectado? Ninguém sabe. O fato é que, no dia 27 de abril daquele mesmo 97 alguém já havia aberto uma porta e dito: “Senhor Cunanan, bem-vindo ao Inferno”. E ele havia entrado.

As várias personalidades se queimaram lá. Restou uma.

Puxou o revólver

e rendeu o senhor

Lee Miglin, 72 anos

1997, Andrew Cunanan aos 28 anos. Um a um, os ricos clientes gays haviam recolhido as chaves de seus apartamentos, os cartões de crédito, dito “até logo” e girado nos calcanhares. Andrew estava mais gordo, menos cuidado, cabelos longos que já não tinham um estilo, um corte.

Pior: seus dois amantes, Jeff Trail e David Madson, o estavam traindo. Talvez com outros homens, o que não teria grande importância, mas também um com o outro, o que era insuportável. Andrew Cunanan sempre sabia de tudo, lembram-se? Bem, isso não havia mudado.

Jeff e David estavam morando em Mineápolis, Minnesota. Não fora sempre assim. Em 1992 Jeff estava servindo a Marinha. Gay, ele tinha um caso com um dos oficiais do navio em que estava baseado – o USS Gridley, ancoradoem San Diego. Jeffem San Diego, e Andrew também…Quando se encontraram, o oficial perdeu a parada.

Os encantos da Marinha não foram suficientes para manter Jeff Trail a bordo do USS Gridley. Um cargo de gerência em uma empresa de Mineápolis o seduziu, e ele estava sinceramente comovido quando comunicou a Andrew sua decisão. Despediram-se carinhosamente, Andrew prometendo visitá-lo muitas vezes em sua nova cidade.

Uma dessas visitas aconteceu no final de 96, ou início de 97. Os dois jantavam em um restaurante quando os olhos de Andrew detectaram David Madson em uma mesa próxima. Madson era um jovem e rico arquiteto de São Francisco, onde ele e Andrew tiveram um caso.

David morando em Mineápolis? Não, não sabia que havia deixado São Francisco. Junte-se a nós, conheça Jeff Trail. Jeff, este é David Madson.

A conversa começou animada. Jeff mudou-se há pouco para Mineápolis, contou Andrew. David colocou-se imediatamente à disposição dele. Prontificou-se alegremente a apresentar-lhe alguns amigos, mostrar a cidade… Prometeu fazer com que se sentisse em casa.

Andrew não gostou daquilo.

Voltou para São Francisco sentindo que algo o incomodava. Toda manhã, quando acordava, percebia que aquele algo havia crescido. Numa delas seu pulso estava acelerado. Quando, em meados de abril, sentiu que o estômago revirava e a cabeça latejava, pegou o telefone e discou Minnesota, Mineápolis, Jeff Trail.

Naquela mesma noite, em um bar, disse a amigos que ficaria fora por uns dias, precisava concluir uns negócios. Quando os amigos descobriram que os negócios a que se referia eram em Mineápolis, eles também foram para o telefone. É preciso cuidado, disseram a David Madson. Andrew tem andado estranho.

Madson o apanhou no aeroporto em 26 de abril. Era um sujeito alterado, rancoroso, quase fora de si que tinha ao lado quando ligou o carro. Ouviu acusações pelo caminho. E ameaças a Jeff. Ameaças feitas ao próprio Jeff, na véspera, naquele telefonema maluco interrompido abruptamente por um “Eu vou matar você” e uma batida violenta no gancho.

Não havia motivos para aquilo, disse David mansamente. Não está acontecendo nada, você mesmo vai ver quando Jeff se juntar a nós.

Jeff chegou ao loft de Madson na noite seguinte.

O tom das vozes foi subindo. Da boca de David saiam pedidos de calma, mas eles não eram ouvidos. Seus olhos viram que uma das mãos de Andrew abria uma gaveta da cozinha. Puxava e erguia o martelo da carne. E baixava violentamente sobre a cabeça de Jeff. Uma, duas vezes… a cabeça despejava sangue e Andrew continuava batendo. Já havia sangue no tapete, na parede, nas roupas de Andrew.

Nos dois dias seguintes os porteiros do prédio viram David e Andrew entrarem e saírem tranqüilamente várias vezes. Vida normal. Lá em cima, enrolado em um tapete persa manchado de sangue, encostado em um canto para não atrapalhar a passagem, o corpo de Jeff Trail apodrecia.

Estava em uma

garagem, com o senhor

Miglin amarrado

Onde, diabos, anda o David? – era a pergunta que os colegas faziam no escritório. Ele já não aparecia há dois ou três dias, e um dos arquitetos da equipe resolveu dar-lhe um telefonema. Ninguém atendeu. Preocupado com o que poderia estar acontecendo, o arquiteto ligou para o síndico do prédio e pediu a ele que verificasse. O síndico encontrou manchas de sangue no chão, nas paredes e, atônito, descobriu um corpo enrolado em um tapete, atrás de um dos sofás, a cabeça esmigalhada.

De alguma maneira, sem que fossem vistos, David e Andrew ficaram sabendo da descoberta. Os dois pegaram o jipe Cherokee de David e caíram na estrada. Andrew levava em um dos bolsos o revólver calibre 40 com três balas no cilindro, e mais sete balas em outro bolso. Um revólver que havia sido de Jeff, deixado por eleem San Diego.

A polícia encontrou uma mochila de Andrew no loft de David, com artigos que o identificaram. No apartamento de Jeff, a secretária eletrônica ainda continha a mensagem do mesmo Andrew, que o convidava ao loft de David para uma conversa.

Enquanto isso, no Cherokee, os dois passavam pela placa rodoviária das45 milhasque os distanciavam de Mineápolis. Andrew ia de ótimo humor. Ele havia matado um homem, e havia gostado. Ele vira o sangue jorrar da cabeça de Jeff, vira pedaços do crânio se espalhando no tapete. Adorava aquela lembrança. Desviou o carro para o acostamento, meteu três balaçosem David Madson.

Aos 72 anos, o senhor Lee Miglin era, literalmente, um dos pilares da comunidade de Chicago. Além das inúmeras campanhas de arrecadação de fundos para a cidade, que ele e sua esposa Marilyn promoviam, algumas das sedes de companhias importantes, como a Hyatt Corporation, e prédios industriais vizinhos ao aeroporto O’Hare, foram construídos por ele. Marilyn era uma empresária de sucesso na área de cosméticos.

Ela estava fora de Chicago, viajando a negócios, no sábado, três de maio. Os Miglin viviam em um elegante condomínio de casas de campo ao norte da cidade, e o senhor Lee estava parado em frente ao seu jardim, provavelmente desfrutando a paisagem no anoitecer. Um vizinho o viu, e ele estava só.

Deve ter sido ali mesmo que Andrew Cunanan o encontrou e rendeu. Levou-o para a garagem, amarrou seus pulsos e tapou-lhe a boca com fita adesiva. Talvez Andrew estivesse drogado, mas isso ninguém jamais pôde saber. Mas que se divertiaem seu Infernoparticular, não há dúvida. Amarrado e amordaçado, o senhor Lee Miglin foi, a princípio, esmurrado. Depois chutado. Teve então, enterrada no peito, várias vezes, uma tesoura de podar arbustos. Gritava, urrava de dor, sem emitir nenhum som. Ainda respirava quando Andrew, vagarosamente, foi abrindo sua garganta com uma serra. Então, o toque final. Aquela trouxa inerte que havia sido o senhor Miglin foi colocada em frente ao Lexus 94 estacionado ali. Andrew ligou o motor e passeou sobre ela. Frente e ré, frente e ré. Quando parou, o que restava no chão era uma pasta.

Ligar Cunanan à morte do senhor Miglin não foi difícil. O Cherokee de Madson ficara nas proximidades, e o banco da frente estava coberto com fotos de Andrew – o atrevido desafiava a polícia. Ele estava agora no topo da lista dos dez mais procurados do FBI, e a caçada ia bem. Sabia-se que dirigia o Lexus 94. Por onde rodava, não era segredo: ele havia feito várias ligações do celular do carro. Os tiras rastearam as ligações e o detectaram nas proximidades de Filadélfia.

O que os policiais não sabiam é que Andrew vinha acompanhando as notícias pelo rádio, havia jogado fora e celular e sumira de vista. Pelo menos da vista dos vivos, porque se escondia em um lugar em que ninguém iria procurá-lo: um cemitério. Cemitério de Pennsville, Nova Jersey, próximo à fronteira da Pensilvânia.

Bem, mas agora ele precisava jogar fora também o Lexus. Olhando em volta do cemitério, viu uma picape Chevrolet 95 estacionada em frente a uma casa que parecia ser do zelador. De fato, William Reese, 45 anos, era o zelador do Cemitério de Pennsville. Ele ouviu batidas na porta e foi abri-la.

Andrew, sorrindo, perguntou se ele poderia servir-lhe um copo d’água para tomar uma aspirina. Claro, claro, respondeu Reese. Quando voltou com a água, Andrew já não sorria. Ao contrário, apontava-lhe um revólver.

– As chaves da picape – exigiu.

– Claro – respondeu Reese. – Não quero problemas.

Pegou as chaves que estavam no bolso e entregou-as. Andrew sorriu, e apertou o gatilho.

Em um café,

esperando alguém

que iria morrer

O FBI só tinha uma certeza: Andrew Cunanan ia matar novamente. Mas onde estava ele agora? Os agentes consultavam o mapa e se interrogavam. Andrew havia crescidoem San Diego, na costa Oeste, mudara-se para São Francisco, ainda na costa, mas mais ao Norte, e cometera os dois primeiros crimes – Trail e Madson – em Mineápolis, no Centro-Norte. Seguindo em direção ao Leste, matou Miglin em Chicago e, completando a travessia, Reeseem Nova Jersey. Paraonde estaria indo? Filadélfia e Nova York, ao Norte, ou tomaria rumo Sul, para Washington, Atlanta, quem sabe Miami, na Flórida? Os tiras não sabiam. Tudo o que podiam fazer era distribuir seus cartazes de “Procurado”, ilustrados com o maior número possível de fotos dele, mostrando a facilidade que tinha para mudar o rosto.

Andrew Cunanan rumava para o Sul, destino Miami, Flórida, mais exatamente Miami Beach. Porque, como havia feito quando deixou São Francisco em direção a Mineápolis, atrás de Trail e Madson, e ao contrário do que havia acontecido com Miglin e Reese, que surgiram por acaso, ele já havia escolhido sua próxima vítima.

O inimigo público número um dos Estados Unidos, o homem no topo da lista dos dez mais procurados pelo FBI, hospedou-se em um hotel em Miami e ali viveu por mais de dois meses sem que ninguém o incomodasse. Andrew chegou à cidade no dia dez de maio de 97, colocou o Chevrolet de Reese em um estacionamento, e nunca mais foi buscá-lo. Um caso típico de carro abandonado, mas que não chamou a atenção de ninguém. A picape que deveria estar sendo exaustivamente caçada por todo o País ficou lá e só foi descoberta depois de mais um assassinato.

Andrew escolheu o Normandy Plaza Hotel. Já teve dias de glória, hoje é apenas um ponto de caminhoneiros ou viajantes que se hospedam por uma noite, ou algumas semanas. Andrew alugou o apartamento 322, no terceiro andar, pagando 690 dólares por mês. Como não tinha bagagem, pagava adiantado.

Freqüentou a praia, os bares, as boates, os pontos gays de Miami. Mais uma vez estava vendendo sexo para sobreviver. Em algumas noites raspava as pernas e se travestia. Voltara a viver comoem São Francisco. Váriasvezes bronzeou o corpo na praia de Miami Beach vendo carros da polícia fazendo a ronda por ali.

Foi reconhecido uma vez. O caso foi contado pelo repórter Richard Lacayo, da revista “Time”. Um empregado de um fast-food, G. Kenneth Brown, notou que era Cunanan aquele sujeito que lhe pedia um sanduíche de atum. Brown levou o pedido à cozinha, esgueirou-se para o telefone e discou 911, o número de emergência da Polícia. Ele ainda falava com o policial enquanto um de seus colegas levou o sanduíche, recebeu o dinheiro e disse bye-bye quando Andrew saiu para a rua.

Mas agora já se sabia: Andrew Cunanan estavaem Miami Beach. Sóque nem a polícia local, nem o FBI, fez o alerta. E a comunidade de Miami ficou sem saber o perigo que corria.

Andrew levava uma boa vida, mas não se descuidava do alvo. Circulava por bares gays caríssimos, pelos clubes Twist, KGB e Liquid. Passou várias manhãs percorrendo o caminho entre a rua Onze e a avenida Ocean Drive, palco badaladíssimo em que muitas celebridades, entre elas o senhor Gianni Versace, apareciam para um sofisticado café da manhã no News Cafe. Normalmente acompanhado, em todos os lugares, por uma equipe de guarda-costas e bajuladores, ali, no News Cafe, Versace gostava de ir sozinho. Andrew sabia disso.

Os dias do famoso estilista se esgotavam: Gianni Versace morreria a 15 de julho. Mas ainda falta uma semana para a data fatal, e o que é que preocupa Andrew Cunanan? Ele está sem dinheiro. Ele investiu no cerco a Versace, pagou contas altas em bares, boates e restaurantes caros. Tem apenas alguns trocados no bolso, e o que é que decide fazer? Recorrer ao penhor. Depois que matou Lee Miglin em Chicago, ele saiu da garagem, entrou na casa, comeu o que de melhor havia na geladeira, assistiu filmes no videocassete e dormiu na cama do casal (a senhora Miglin viajava a negócios, lembram–se?). Na manhã seguinte revistou a casa, pegou o dinheiro que encontrou, e também algumas moedas de ouro.

Agora ele iria colocar uma das moedas no prego. Vivian Oliva, a operadora da casa de penhores Cash On The Beach, Dinheiro Na Praia, ofereceu 200 dólares por ela. OK, mas Andrew precisaria apresentar dois documentos de identificação que confirmassem sua assinatura, mais um comprovante de residência. Pois bem: ele apresentou dois documentos reais, assinou seu nome real no formulário que lhe foi apresentado, e comprovou seu endereço real, Normandy Plaza Hotel.

Andrew seguiu seu caminho, aquele formulário também. De acordo com as normas locais, ele foi encaminhado ao Departamento de Polícia de Miami Beach. Motivo: checar, em uma lista de nomes de fugitivos, se o cliente do penhor não havia apresentado um objeto roubado. Bingo!

Recebido por um policial do Departamento, o formulário foi encaminhado ao setor competente e depositado na mesa do funcionário que iria fazer a checagem. Funcionário este que… estavaem férias. Horasdepois do crime alguém notaria aquele papel sobre a mesa e gritaria: “Ei, vejam só isto aqui”.

Um belo café da manhã foi servido ao senhor Gianni Versace naquele dia 15 de julho de 97. Como sempre, aliás. Versace era também um bom gourmet, conhecia o excelente serviço do News Cafe e era um de seus clientes mais assíduos. Ele terminou o café, pagou, cumprimentou o garçom que agradecia a gorjeta e foi caminhando para casa, a mansão de fachada Renascentista a poucos passos dali. Chegando, subiu os cinco degraus da escadaria de pedra em frente ao grande portão de ferro, com florais no centro e nas laterais, e colocou a chave na fechadura. Duas balas calibre 40 estouraram sua cabeça naquele exato momento.

Andrew Cunanan, que viera acompanhando os passos dele desde o Cafe, girou nos calcanhares e foi embora.

A Imprensa bateu forte, a comunidade da Flórida ultrapassou a indignação, o FBI e a polícia local ficaram acuados. Descobriu-se o Chevrolet de Reese no estacionamento, foi divulgado o telefonema do fast-food para o 911, o formulário do penhor foi encontrado, localizou-se o apartamento 322 do Normandy Plaza Hotel.

Mas por que Versace? – era uma das perguntas. O FBI apresentou uma teoria nunca comprovada de que Andrew teria sido recusado por ele em um teste de modelos.

Oito dias se passaram sem que houvesse sinais de Cunanan. Na tarde de 23 de julho o zelador Fernando Carreira, português, encarregado da guarda da casa de barcos do milionário alemão Torsten Reineck, em um canal muito exclusivo de Miami, notou uma porta entreaberta. Foi investigar. Nada de errado na sala de estar. Mas quando ele chegou ao primeiro andar viu-se cara a cara com um jovem que, ao vê-lo, correu para o quarto do senhor Reineck e bateu violentamente a porta ao entrar. O jovem correu para um lado, Carreira para o outro. Ele havia notado de imediato que se tratava do fugitivo que o FBI estava procurando.

A casa de barcos foi cercadaem minutos. Quatrocentospoliciais ocuparam o cais. Atiradores de elite tomaram posição em pontos estratégicos. Barcos da polícia costeira cercaram a praia pelo lado do mar. Helicópteros sobrevoavam. O cerco durou três horas, “Saia com as mãos para cima”, até que a ordem de ataque foi dada, às oito e quinze da noite.

Bombas de gás foram lançadas e vários agentes entraram, através de portas e janelas. Nada encontraram no andar de baixo. Automáticas engatilhadas, subiram. Silêncio. Então eles o viram.

No Inferno, Andrew Cunanan estava caído ao lado da cama, o revólver de Jeff Trail em uma das mãos, partes do crânio jogadas para fora através de um buraco na cabeça.

(Este texto foi feito através de pesquisas em jornais norte-americanos e sites na internet)

Vida Daslu

(Reportagem para O Estado de S. Paulo, publicada em 10 de dezembro de 2005)

Às 4h30 da manhã uma luz é acesa na casa de José Carlos de Souza, 29 anos, no Itaim Paulista, a 26 quilômetros do centro de São Paulo, onde ele mora com a mãe, uma irmã e seus dois filhos. José sabe: tem exatamente 15 minutos para a chuveirada, o café e o trem que o levará até o bairro do Brás. Dali, o metrô para a Barra Funda. Depois, para Presidente Altino; então, para Jurubatuba e, antes de chegar lá, a parada final, na estação de Vila Olímpia.

Toma a direção da Rua Gomes de Carvalho, junto à Marginal do Pinheiros, chega ao seu último quarteirão, identifica-se para dois seguranças e caminha mais 100 metros, até o número 2.030, onde fica o portão gradeado em que assumirá seu posto. É o primeiro a chegar. São 6h45. Tem atrás dele um palacete neoclássico com uma área de 20 mil metros quadrados por onde circulam 1.500 pessoas diariamente, 68% delas no período das 10 às 18 horas, as outras 32% das 18 às 20 (22 horas às terças-feiras). Se os clientes não tiverem o seu próprio e exclusivo cartão, vão pagar R$ 30,00 de estacionamento pela primeira hora, R$ 10,00 pelas seguintes (os primeiros 20 minutos são livres).

José Carlos de Souza é um dos seguranças que têm a missão de abrir a Daslu, um dos símbolos do consumo de luxoem São Paulo. Umlugar em que você pode comprar uma bisnaga de soro fisiológico de cloreto de sódio na Drogasil por 40 centavos e uma ilha em Angra do Reis, à venda na Coelho da Fonseca, por R$ 1,8 milhão. Mas em que também é possível, em um dos 11 cafés da loja, pedir uma água, natural ou com gás, ou uma coca, normal ou light, uma dose (ou mais) de Johnnie Walker Green (15 anos), um café ou um cappuccino, alguns biscoitinhos finos e, depois de degustá-los, despedir-se com um obrigado e um até logo. Cortesia. (Aos sábados, não: como o movimento é muito grande, os cafés da Daslu oferecem apenas água natural e, é claro, café).

BEM-VINDO

Você chega à Daslu pela Avenida Chedid Jafet, uma travessa da Juscelino Kubitschek, sempre com seu carro, ou táxi, e entra à direita em um primeiro portal, onde dois seguranças apenas o observam. Roda por aproximadamente 50 metros até o segundo portal, onde encontra Fabiano do Nascimento, 30 anos, há sete anos e dois meses o “cartão–postal” da megaloja, como dizem os colegas. Bem-vindo é sempre a primeira palavra dele. Então ele lhe pedirá, gentilmente, o cartão de entrada – um cartão igual aos de crédito, preto, com o logotipo Daslu. Você não o tem? Fabiano, sempre simpático, vai indicar-lhe o subsolo, onde seu cadastro será feito. Fabiano é de Belém, na Paraíba, mora no Jaguaré e toma dois ônibus para chegar ao local de trabalho. Tem sotaque, como se poderia esperar, e um dia desses uma cliente, paraibana, reconheceu o acento e disse: “Você é meu vizinho.” É casado, tem duas filhas, sua mulher espera a terceira e trabalha ali mesmo, na loja, onde é auxiliar de vendas, ou “apoio”, o que significa que aproxima clientes e vendedores (nem sempre se encontram vendedores facilmente por ali). Fabiano é técnico de enfermagem formado e, embora goste muito de seu emprego, diz que está aberto a propostas melhores, de preferência na própria Daslu.

Alguns metros depois, cerca de 50, chega-se à entrada da loja. São três fileiras de colunas estilo grego, seis em cada uma, a primeira à parte, separando os carros da segurança, a segunda para a sua entrada, onde se deve ir até o fim e dar a volta, e a terceira, onde esperam os manobristas, comandados pelo senhor Leônidas Fagundes Borges, 61 anos, que se apresenta como porteiro-capitão, é o funcionário mais antigo da empresa e diz que, em dias de lançamento de coleções, recebe bem mais de mil pessoas.

Cumprimenta com suas luvas brancas, tirando o quepe, e as pessoas entram no térreo, onde, à esquerda, fica a livraria Laselva (um livro do fotógrafo Richard Avedon custa R$ 305,00 e o último Saramago R$ 35,00). No térreo está parte do setor de importados, com lojas como Giorgio Armani, Louis Vuitton (onde um par de sandálias tipo havaianas “Paris” custa R$ 865,00, um jeans feminino R$ 1.750,00, uma bolsa com monograma R$ 2.250,00), Gucci (um tamanco feminino por R$ 1.540,00), Chanel (uma sandália feminina por R$ 1.660,00), Emilio Pucci, Manolo Blahnik, Chloé, Dolce & Gabana, Céline (cashmere a R$ 2.280,00), e Salvatore Ferragamo (mocassim feminino a R$ 1.285,00). Há também, neste setor de importados, outras peças, como um terno Daslu Homem, por R$ 1.398,00.

ESTILO

Uma cliente típica veste-se com roupas finas, casualmente: uns jeans desbotados, uma blusa que não arrasa quarteirões, uma sandália, ou sapato de ponta fina, bem folgado, desses que a gente vê em todos os lugares, desde que entraram na moda. Veste-se, na verdade, como uma vendedora Daslu. Estas sorriem, chamam as pessoas de “querida”, ou “meu amor”, e tornam-se íntimas a ponto de saber os gostos e costumes das clientes mais importantes, às quais telefonam quando chega algo que, como dizem, “tem a sua cara”.

Taís Freitas é uma vendedora Daslu há três anos e meio, depois de um estágio de três meses. Em seu aprendizado, entendeu que é preciso conhecer tudo o que é possível sobre as clientes, e isso inclui, naturalmente, o guarda-roupa delas. Chega ao ponto em que lhe telefonam e dizem: “Taís, estou indo para Nova York, e você sabe que há um friozinho por lá. O que levo?” Vende mais habillés (vestidos de noite), acessórios, como cintos e bolsas, e roupa comum, para o dia-a-dia.

Veste Daslu, como todas. Hoje está com uma camisa branca, uma calça de alfaiate, com riscas de giz, e uma sandália crocô (leia-se crocodilo). Calcula que, como são produtos da própria Daslu, e não importados dos parceiros da marca (grifes internacionais que têm pontos de venda ali) alguém como eu ou você gastaria R$ 700,00 para comprar.

Conhece algumas histórias, que conta discretamente, sem acrescentar nomes. Como a de uma cliente que chegou furiosa, depois de uma monumental briga com o marido, e disse que queria “um tratamento de princesa”. Comprou e comprou. “Ele vai me matar”, comentou. Surpresa: o marido ligou para Taís no dia seguinte. “Você não imagina”, disse ele. “Tivemos uma noite maravilhosa. Tenho muito a agradecer a você. Obrigado mesmo.”

A Daslu conta com 70 mil clientes cadastrados, 85% delesem São Paulo. Quinzemil são novos, fizeram compras nos últimos seis meses, desde a abertura da nova sede. No exterior, vende para 90 lojas em mais de 35 países.

DAS LUS

Daslu nasceu em 1958, na garagem de uma casa na Vila Nova Conceição, montada por Lucia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha, as duas “Lu”. “Vamos à lojinha das Lus”, diziam as pessoas, e o nome ficou, perdendo o S final. Lucia e Lourdes fizeram aquilo meio de brincadeira, meio por passatempo, e então viram que poderiam ganhar dinheiro. Criaram seus modelitos, contaram para os amigos, que por sua vez contaram a outros amigos, e de repente perceberam que tinham uma clientela que vinha de várias partes do País. Receberam um impulso muito grande quando o Brasil abriu seu mercado para os importados. Naquela época Eliana Tranchesi já havia assumido a direção da empresa após a morte de Lucia, sua mãe. E foi ela quem fisgou Chanel, Gucci e Louis Vuitton, trazendo seus produtos para a Daslu.

Mas era preciso crescer, e Eliana foi comprando casas vizinhas: derrubou 23 delas e anexou seu espaço à loja. Que começou a incomodar. Houve uma briga de anos, mais exatamente sete anos, em que os moradores da Vila Nova Conceição usaram de todos os recursos disponíveis para tirar dali a Daslu e o movimento incessante que ela provocava.

– Passei cinco anos rezando para manter a Daslu no lugar em que minha mãe a criara – conta Eliana. – Um dia acordei e decidi: vamos mudar.

São 17 mil metros quadrados de área de vendas, em três andares, servidos por 21 elevadores, 2 mini-lifts (que transportam compras de clientes de um ponto a outro da loja – o estacionamento, por exemplo), e um monta-carga (um elevador com capacidade para 35 toneladas, por onde transitam atrações como Volvo, Maserati, Jaguar, MiniCooper ou lanchas Ferretti). Os banheiros são 76, com 221 vasos sanitários. E há o terraço, com mais três mil metros, destinado a festas, recepções, casamentos. Ali se casaram os socialites Mrcela Junqueira e Lincoln Figueiredo – 1.200 pessoas estavam presentes.

Se você estiver pensando em dar uma festa lá é porque tem uma bela conta bancária: o aluguel, por noite, é de R$ 80 mil. Quem quiser chegar sem enfrentar o trânsito das ruas ou da loja pode ir de helicóptero: há um heliponto no teto.

Todos os números são grandes em relação ao terraço: para que ele seja propriamente utilizado, 622 funcionários são acionados. Alguns exemplos: entre garçons e mão-de-obra na cozinha vão 150; para decoração e cenografia, mais 200; o som, com equipe técnica, banda e DJs, exige mais 80, etc., etc., etc. Três ambulâncias ficam de plantão.

A Harrods, de Londres, outro centro sofisticado de consumo, tem uma oferta especialíssima para seus clientes: por 250 mil libras (pouco menos de R$ 1 milhão), eles podem ter sua imagem reproduzida em cera pelo ateliê de madame Tussaud. Eliana Tranchesi e duas de suas maiores amigas, Donata Meirelles, diretora de Importação, e Mônica Mendes Bueno de Campos, diretora de Relações Públicas para a Área Internacional, tiveram a mesma idéia e quiseram reproduzir a si mesmas para que suas imagens ficassem junto à entrada principal da Daslu, recebendo os clientes. Conseguiram um preço mais modesto: US$ 70 mil a peça (aproximadamente R$ 153 mil). Desistiram.

Esta foi, provavelmente, a única economia do novo projeto. Porque a Daslu não poupou gazebos, átrios, colunas e jardins projetados em linhas clássicas que seguem o estilo de villa italiana. Peças de antiquários, daqui e de Milão, espalham-se pelo prédio: espelhos venezianos, ânforas e obeliscos de mármore, vasos, abajures, porta-retratos e muita coisa mais. Eliana diz que tomou como referência o prédio da embaixada italianaem Berlim. Aestimativa é de que algo como R$ 200 milhões foram gastos, R$ 50 milhões por Eliana, na decoração, e a outra parte pelo grupo português Ergi, que comprou da Eletropaulo o esqueleto de uma obra inacabada e construiu ao lado dele o prédio da Daslu.

AVE, MARIA

Nas fundações da Daslu, nas lajes, nas colunas, em meio ao concreto, 20 mil componentes estão espalhados e não existem em qualquer outro prédio de São Paulo, e provavelmente do planeta: são medalhinhas de Nossa Senhora de Fátima.

No frontão do prédio há uma imagem com 2,5 metros de altura representando Nossa Senhora, que segura o Menino Jesus. Em todas as salas há imagens da Virgem e de santas as mais variadas, como Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, Santa Terezinha, Santa Rita e muitas outras. São mais de 300. Só na sala de Eliana Tranchesi há perto de 20. E por que? Porque Eliana, como ela própria diz, é muito católica, vai à missa todos os domingos, e é devota da Virgem Maria, de quem recebeu uma graça preciosíssima.

Aconteceu há pouco mais de 15 anos. Sua segunda filha, Luciana, que tinha então nove meses e estava sendo banhada pela babá, por um descuido desta caiu de costas e estava se afogando. Eliana, em outra parte da casa, impelida sabe-se lá o por quê, entrou no quarto e viu a filha, embaixo d’água, suas feições já se arroxeando, e arrebatou-a. Luciana já não respirava. Ela correu com a filha para a garagem, mas o motorista não estava lá. Eliana gritou. Veio socorrê-la um pedreiro de uma obra vizinha, Francisco, que pegou a menina, virou-a de costas e pressionou. Luciana expeliu uma golfada d’água, mas já estava em coma e não respirou. A caminho do hospital, Eliana foi lhe aplicando respiração boca a boca, mas até que ela respirasse, e recebesse os primeiros socorros médicos, mais de cinco minutos haviam se passado.

Enquanto Luciana era atendida pelos médicos, Eliana e alguns amigos que foram ao hospital começaram a rezar, e então uma cunhada dela disse que teve a sensação de ter visto, bem ali ao lado, a presença de Nossa Senhora.

Luciana é hoje uma linda garota de 16 anos, inteligentíssima. Para espanto até dos médicos, não ficou com qualquer sequela do incidente, apesar dos mais de cinco minutos sem respirar. Eliana diz que não tem dúvidas: foi um milagre.

E as medalhinhas estão lá, distribuídas pelo cimento das fundações.

HOMEM NÃO!

Do andar térreo, em que, como vimos, ficam principalmente importados, duas escadas laterais conduzem ao gazebo do primeiro andar, onde está a Daslu Mulher. Há um salão de mármore na entrada, poltronas, sofás, um café à direita e quatro telas a óleo, duas em cada uma das paredes laterais, retratando personagens criadas pela imaginação de Eliana. Uma delas a Infanta Anna Fhilomena Bragança Cavalcante de Albuquerque, que uma inscrição indica ter sido uma dasluzete (do staff da Daslu) de1810 a1818.

Um doberman hostil vigia os clientes de uma porta da parede em frente, ao lado de um espelho veneziano. É uma estátua com uma coleira em que, na parte dianteira, entre uma bandeira dos Estados Unidos e outra da Inglaterra, está escrito: Man Not Allowed (Homem Não Entra). Estamos na parte mais íntima da Daslu, o domínio feminino. Ali estão lojas como a Frattina, Cartier, Maurice Martin, H. Stern, Bijoux, Triton eLa Perla, por exemplo, entre as peças sedutoras da Daslu Mulher. Provadores? Não existem. É o território de – como disse Gay Talese em seu ensaio sobre a revista Vogue – grupos de mulheres suaves, de toaletes impecáveis, que se chamam umas às outras de “meu bem” e “querida”. Aqui, elas disputam as roupas que desejam. Despem-se, experimentam, trocam de peças, e exibem suas formas invejáveis, ou nem tanto. Camisas entre R$ 300,00 e R$ 500,00, sandálias entre R$ 500,00 e R$ 700,00, paletós entre R$ 600,00 e R$ 800,00, biquíni Daslu Basic R$ 186,00, perfume Daslu número 1, na Perfumaria Arôme, R$ 180,00.

A cada três meses um desfile de modelos belas e magérrimas (algumas pouco menos que isso) sai da porta em que o doberman monta guarda e desfila pelo gazebo, apresentando uma nova coleção. As coleções são Verão, Alto Verão, Inverno e Alto Inverno. Hoje o desfile é do Alto Verão, e o movimento de potenciais clientes, vendedoras e SOSs, é grande. SOS: a ajudante de cada vendedora mestra, que não tem como deixar suas clientes e sair em busca de peças para elas. A estimativa é de que 75% dos clientes presentes compram e, como já vimos, o movimento diário da Daslu é de 1.500 potenciais compradores, 40 mil por mês.

Carmen Maril Jaudy, seis meses de Daslu, é uma das vendedoras mais ocupadas neste desfile, já vendeu duas sacolas de mercadoria e não vê a hora de voltar ao gazebo. Começou trabalhando como apoio, usando uniforme azul-marinho com avental branco, e dizem lá que os apoios, masculinos e femininos, são a alma da loja: sem sua ajuda as vendedoras nada fariam. É fato: um senhor que, no segundo andar, tentava comprar um cinto, só o obteve depois que um apoio conseguiu caçar-lhe uma vendedora. Carmen, como as demais, tem a sua lista de clientes, aquelas que lhe telefonam e às quais telefona relatando novidades, tendências. Mas o que acontece quando a cliente é nova, entra ali pela primeira vez, e ninguém sabe nada sobre ela? Simples, segundo Carmen: a tática é ver como se veste, ir conversando, sugerindo, perguntando, e então, bingo! ela já se sentirá em casa, será cadastrada, conhecerá a loja. O beijinho de despedida é fundamental. Carmen olha para o futuro: estudou negócios da moda e dedica-se à comunicaçãoem marketing. Elajá fez sua escolha: marketing.

O desfile de Alto Verão contou com 34 modelos – 27 mulheres e 7 homens, com idades entre 16 e 25 anos. Destaque para as modelos Isabella Fiorentino, Cássia Ávila, Mariana Bitencourt, Patrícia Silveira e Sabrina Gasperin. Os conjuntos, ou looks, desfilados, foram 71. Os números totais ainda não foram contabilizados, mas, no desfile do Verão, 7.202 pessoas foram à loja. Comparando: no ano passado – antes, portanto, da nova Daslu – esse número foi de 3.857, o que significa um aumento de 86%. Mais comparações: na semana do Dia dos Pais, este ano, os clientes foram três mil, eram 1.300 no ano passado. A média diária, no estacionamento, está próxima de 1.500 carros; em 2004 havia 700.

Quando se fala em moda, modelos, looks, vestidos, blusas e calças, os ajustes são fundamentais. A senhora Margarida Dias, costureira, vai completar 20 anos de Daslu. Naquela época, 1986, elas eram 10, hoje são 30. Mora em Interlagos, chega à sua máquina de costura ao meio-dia e vai embora oito horas mais tarde. Faz os acertos em peças já prontas, que as clientes escolheram e compraram. Gasta mais tempo com os habillés, os vestidos de noite, que exigem mais cuidados – são dois ou três acertos por dia, cada um levando perto de duas horas, quando há problemas. Sim, porque as marcações são feitas na venda, não na sala das costureiras, e muitas vezes as coisas não batem. Então as clientes vão a dona Margarida, nem sempre satisfeitas, e ela tem que refazer as marcações no corpo delas. E como vai alfinete nisso! – ela, e suas colegas, costumam usar 15 quilos por mês. Quanto de linha? Não dá para calcular. Quantas costuras? Entre duas mil e 2.500 todos os meses. A costura é fechada a máquina, na mão vai o drapeado, e só há uma certeza: tem que dar certo.

BAR, BALCÃO

Uma das vedetes do primeiro andar é o restaurante Leopolldina, filho do famoso Leopolldo, antigamente na Rua Leopoldo Couto Magalhães, no Itaim. Na entrada fica o bar, com mesas e cadeiras no balcão, onde são servidos principalmente sanduíches e alguns pratos (hambúrguer a R$ 22,00). O restaurante vem a seguir, com janelões de vidro que tornam o ambiente claro e agradável. Há uma mesa para as saladas, outra para os pratos quentes e ainda outra para as sobremesas. Se ficar satisfeito, e quiser deliciar a digestão com um conhaque, peça um Remy Martin Extra, R$110,00 adose, ou, se preferir, um Fundador, bem mais em conta: R$ 17,00. Os uísques variam de R$60,00 adose para o Blue Label a R$ 16,00 para o Red. No almoço do sábado, quando o movimento é maior, 450 pessoas são servidas no restaurante e 200 no bar.

Além do Leopolldina existem também o Champagne Bar, no térreo, o restaurante japonês Kosushi, no segundo andar, e o Pati Piva Chocolates, no terceiro. Todos eles oferecem, semanalmente, sugestões gourmet. No Champagne Bar e no Leopolldina, de segunda a sábado, happy hour a partir das 18 horas. A Daslu não abre aos domingos.

Na saída, percorrendo os largos espaços da loja, você pode aproveitar e parar em um dos cafés. Eugênio Tomás Silva Neto, 21 anos, poderá servi-lo em um deles. Está lá há seis meses, serve 150 cafezinhos por dia,50 a60 cappuccinos,30 a40 chocolates, 20 litros de água natural, 2 litros de água com gás, 2 pacotes de biscoitos de aveia com mel, 5 pacotes de torradas, 1,5 litro de Johnnie Walker Green. E atenção: você pode ficar ali o tempo que quiser, repetir de tudo, inclusive o uísque. Há uma técnica para os bons bebedores: antes que se deixem embebedar, Eugênio vai aguando as doses, colocando um pouco mais de água, um pouco mais de gelo e… resultado: nunca precisou negar uma dose a alguém que se tornasse inconveniente.

São 21 os barmen da Daslu. Os vendedores são 160 (109em Daslu Mulher, 26em Daslu Homem, 13em Daslu Teene 12em Daslu Casa). Os apoios que, como já vimos, são considerados a alma da casa, são 194. Há 58 pessoas encarregadas da produção, 44 caixas e 54 funcionários da costura, número que inclui costureiras e alfaiates. Há um restaurante próprio para os funcionários, o Atta, em que 300 pessoas tomam o café da manhã e 250 almoçam. A refeição custa R$ 8,50.

Já que falamos de números, vamos a outros. Nos 11 cafés, calcula-se que são servidos 888 cafezinhos por dia, 23.100 por mês. De água com gás que, como vimos, há um consumo menor, saem 22,5 litros todos os dias, perto de 600 por mês, enquanto a água natural jorra com um volume de oito mil litros por mês, 308 por dia, no que toca somente a funcionários, que hoje são 900 (eram 1.070 na inauguração). Os biscoitos são servidos em uma média de 2.800 diariamente, 72.800 mensalmente. E há o consumo da creche – porque a Daslu tem uma creche para a garotada de poucos meses a oito anos de idade, todos filhos de funcionários, com 181 ilustres freqüentadores. Eles estão no Centro Educacional Villa Daslu, divididoem Educação Infantil(114 alunos) e Ensino Fundamental (67). Lá são servidas 771 refeições por dia, preparadas 47 mamadeiras, trocadas 178 fraldas e dados 30 banhos.

LABIRINTO

Uma estratégia na nova Daslu repete a da anterior: não há separação entre as lojas. Em um momento você estáem Ralph Lauren, em seguidaem Giorgio Armani, depois em Prada, Richard’s, Volvo, Expand ou Nike. É simples: os clientes são praticamente obrigados a passar por toda parte, mesmo quando têm um objetivo já escolhido. E os apelos às compras se multiplicam, assim como se multiplica a dificuldade de achar um elevador, uma escada, simples ou rolante, e o conseqüente deslocamento de um andar para outro.

As grifes acima citadas estão no segundo andar, na Daslu Homem. Alguns preços: blazers a partir de R$ 998,00, camisas a R$ 198,00, jeans a R$ 198,00. Sandálias havaianas, que na Louis Vuitton custam R$ 865,00, podem ser encontradas aqui por R$ 38,00, mas não a modelo “Paris”, é claro. Maserati Spider 2005, V8, R$ 600 mil. Um iPod de 20 Giga, R$ 2.090,00. Câmara digital Sony bivolt, R$ 2.099,00… mas que pode ser paga em três parcelas de R$ 699,77.

No terceiro andar, a Daslu Casa e a Daslu Teen. Na Casa, com Ester Giobbi, Sig Bergamin, Spicy (cafeteira expresso/cappuccino a R$ 1.038,00, geladeira italiana Ariston em oferta, de R$ 6.990,00 por R$ 4.990,00), Jorge Elias e muito mais. Uma argola para guardanapo Daslu por R$ 9,00, cafeteira Illy por R$ 2.480,00, vaso de porcelana por R$ 5 mil. Ali está também o espaço de Ana Luiza Wawelberg (abajur a R$ 4 mil, com variações para mais ou menos). Na Teen há a Daslulu, a Brooksfield Jr., a Banana Republic & GAP, a Daslu Meninas (10 a16 anos). Um exemplo: mochilas a R$ 178,30.

Cliente da Daslu Homem (e também da Daslu Mulher, já que vem acompanhado da sua), o empresário Frederico Martini, que se dedica ao comércio exterior, com especialização em logística internacional, costuma vir fazer suas compras aqui há 5 anos. Ele é de Belo Horizonte, e sempre que pode traz amigos para apresentar-lhes a loja. Ele sabe, diz, que há muito preconceito em relação a ela, que dizem ser uma coisa elitista, etc., mas afirma que se sente na Daslu como se estivesseem casa. Sentadoem um sofá no gazebo do primeiro andar, com várias sacolas a seus pés (enquanto a mulher está lá dentro, depois da porta que aquele doberman guarda), ele conta que veio fazer algumas compras para o Natal.

– Há muita coisa cara aqui – diz –, mas também preços acessíveis. – Veja, um guardanapo personalizado custa R$ 16,00! Os importados é que estão fora do meu padrão.

Calcula que gastou uns R$ 1.500,00 (não sabe o que a mulher está comprando lá dentro). E sintetiza:

– Quando venho aqui gasto entre R$ 500,00 e R$ 4 mil.

REAÇÕES

Um projeto como este não poderia deixar de provocar polêmica, que começa com os fanáticos por Daslu. Enquanto se mudava da Vila Nova Conceição para a Vila Olímpia, a loja esteve fechada por duas semanas. Houve clientes que ficaram meio perdidas, como a publicitária Bel Mellão: “Detestei essa história de ficar sem Daslu. Primeiro, deu uma tristeza muito grande, uma coisa esquisita, parecia que tinha morrido alguém.” Outra a se manifestar foi a empresária Elisabete Arbaitman: “Lá, a gente se sente em casa, é recebida com um sorriso enorme. Sabe quando está chateada? Vai lá, vê coisas lindas, sai no maior astral.”

Mas, para a professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP Ana Matilde Pacheco Chaves, a “Daslu é um símbolo do templo de novos ricos em uma sociedade extremamente desigual, onde o que importa é não só mostrar o que se tem, como ostentar”.

Vai na mesma linha o músico Marcelo Yuka, que foi da banda O Rappa: “A Daslu é um ato de violência e um totem da má distribuição de renda.”

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Às 17h30, Francisco Rodrigues Monteiro, 38 anos, deixa a casa em que mora com a mulher e um casal de filhos. Está no Grajaú, pega o Passa-Rápido para Rio Bonito, pára no Terminal de Santo Amaro, segue para o Largo 13 e, do Terminal Bandeira, vai até a estação de Vila Olímpia. Chega lá, no portão da Gomes de Carvalho, às 18h30, e pouco antes das 19 substitui o colega José Carlos de Souza, que conhecemos no início desta história.

Uma hora depois a Daslu fecha suas portas para os clientes. É o fim de mais um dia na vida da megaloja.

 

(Minha primeira visita à Daslu foi para explicar o que pretendia fazer – afinal, eu teria que ir à loja dias seguidos, circular por lá, e certamente a segurança estranharia a presença daquele sujeito, entrando em todas as lojas, checando tudo, sem nada comprar. E eu precisava de dados que só a Daslu poderia me fornecer. Quando voltei, para iniciar a matéria, fui recebido por uma graciosa funcionária do Departamento de Imprensa, que Eliana Tranchesi colocou à minha disposição. Voltei lá umas três, quatro vezes, circulei por quase tudo – infelizmente não me deixaram entrar na área da Daslu Mulher. A garota sempre ao meu lado, sempre gentil, simpática. Mas eu não conseguia imaginar uma angulação, uma abordagem, um início de matéria.

 Então, em uma manhã de sábado, chamei Lúcia, minha mulher, e fomos para a Daslu. Andei por toda parte novamente, Lúcia foi àquele território proibido para mim e me trouxe informações, fomos ao Leopolldina, tomamos um drinque no balcão do bar, comprei um cinto na Daslu Homem – sim, era eu aquele senhor que precisou recorrer a uma SOS para conseguir uma vendedora. E quando saímos algo havia pipocado em minha cabeça: eu tinha a matéria.)