O homem que matou Versace

(Escrito em 1998 para revista virtual Magazine, do Portal de O Estado de S. Paulo)

 

Andrew Cunanan era um garotão bonito, bem vestido, inteligente – QI 147 – bem relacionado e gay.

Nada a ver com o que se tornaria depois. O assassino compulsivo que passeou com o carro – para frente, para trás, para frente, para trás – até que o corpo de uma de suas vítimas virasse uma pasta.

Ou o homicida frio e determinado que esperou, pacientemente, que o estilista Gianni Versace fosse tomar um café, caminhou atrás dele quando voltava para casa e, com precisão cirúrgica, meteu–lhe duas balas na cabeça.

Aqueles foram os diasem que Andrewmergulhou no Inferno. E gostou. E como acontecia com tudo o que provava e gostava – roupas de grife, bons vinhos, drogas, pornografia, perversão e sexo – ele queria mais.

Andrew Cunanan foi um projeto detalhadamente planejado e executado por Andrew Cunanan. Ele não gostava da realidade à sua volta? Sem problema. Vamos mudar essa realidade.

Pois não foi o que fez com seus pais? A mãe, Mary Anne Shilacci, havia conhecido o pai, Modesto Cunanan, e se apaixonara por aquele marinheiro filipino de porte elegante e bigodinho à Errol Flynn. Mas quando Andrew nasceu, em 31 de agosto de 1969, o casal já tinha três filhos, Mary Anne descobrira que o seu Errol Flynn não era tão Errol Flynn quanto pensava, e Modesto passara muito tempo no mar para acreditar na fidelidade dela.

Na verdade, Modesto achava que uma das filhas não era dele. Acusada, Mary Anne entrou em crise de depressão e estava sob cuidados médicos. Quem criou Andrew foi o pai, e com muito orgulho. “Meu filho nunca chorou”, vangloriava-se ele.

Nunca chorou, e cresceu vendo e ouvindo as brigas terríveis entre a mãe e o pai. Muitas vezes não queria ouvir nem ver, e trancava-se em seu quarto, ligava bem alto a televisão e pronto, aquilo não estava acontecendo.

Era preciso dar umas pinceladas naquela realidade para que ela não chegasse aos colegas do colégio. Andrew havia aprendido, nas histórias em quadrinhos, que um insosso Clark Kent podia se transformar em um glamuroso Super-Homem. Por que não poderia acontecer o mesmo com seus pais? Pois ele cuidaria disso pessoalmente.

E foi assim que ele pintou, na escola, uma Mary Anne Super-Mãe e um Modesto Super-Pai. Os colegas precisavam ver, dizia, como os pais o tratavam. Mamãe vivia cercando-o de atenções e cuidados, fazendo comidinhas muito especiais para ele, e papai vivia dando-lhe isso e aquilo.

A princípio com inveja, depois com desconfiança, e finalmente desacreditando, os colegas passaram a rir dele pelas costas. Mas isso jamais abalaria Andrew Cunanan, porque ele não permitiria em hipótese alguma ser abalado. Riam pelas costas, mas Andrew Cunanan sabia de tudo. E iria tomar providências.

Por isso, certo dia, Super-Mãe chegou ao colégio, na hora do recreio, trazendo para ele um lanche de lagosta ainda fumegante. Os colegas viram aquilo enquanto mastigavam seus sanduíches de pasta de amendoim com geléia.

Andrew pegou o

martelo de amaciar carne e

estourou a cabeça do sujeito

Então Super-Pai decidiu dedicar-se aos negócios. Deixou a Marinha, fez cursos e conseguiu um certificado de corretor de valores. Mergulhando fundo na vida nova, extrapolava nas atenções com o filho predileto: Andrew era levado às lojas mais caras de Bonita, elegante bairro nos arredores de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos. Ganhava roupas de grife, vistosas, que exibia com a graça e arrogância de um manequim profissional.

Era gay e fazia daquilo um show. Dizem seus biógrafos que teve a primeira relação homossexual no início da adolescência. E como gostou! Gostou tanto que, ao invés de escondê-la, como seria normal em um garoto daquela idade, contou-a em detalhes aos colegas da escola. E a cada relação que mantinha, novo relato fazia, a quem quisesse ouvir. Naquela altura, só papai e mamãe não sabiam.

E os colegas – surpresa! – nem pensaramem incomodá-lo. Viviamperseguindo e provocando outros gays da escola, mas a Andrew não. Um deles contou que o achavam divertido, riam dele e com ele, era o cara mais engraçado do pedaço. Um gay tão assumido, tão feliz na sua homossexualidade, que ninguém se sentia agredido por ela.

Tinha apenas quinze anos quando passou a freqüentar os bares e pontos de encontro gays mais populares de San Diego. Então, mais uma vez, recorreu à síndrome do Clark Kent. Andrew Cunanan era um sujeitinho de origem filipina sem nenhuma graça? Ora, ele se tornaria um Super-Homem latino inteligente e cheio de charme.

Um Super-Homem só? E por que não dois? Transformar-se era um de seus hobbies prediletos: num estalar de dedos mudava o corte de cabelo, as maneiras, as roupas, os gestos. E assim Andrew DaSilva e David Morales, diferentes entre si, mas igualmente charmosos, elegantes, cheios de ironia e frases afiadíssimas, surgiram na comunidade gay. Foram muito cortejados. Davam muita atenção aos mais velhos, aos cheios da grana. Senhores de vida dupla, gays ao pôr-do-sol, mas que despertavam em camas king-size ao lado da mulher, e beijavam os filhos quando saíam para os negócios.

Aos dezoito anos, matriculado no curso de História da Universidade da Califórnia – os pais exigiam o estudo – Andrew era um garoto atraente e, sobretudo, caro. Um prostituto de luxo, disputado, com clientes no topo da sociedade. Muitos mantinham apartamentos secretos para encontrá–lo, davam–lhe cartões de crédito sem limite de gastos, e presentes como automóveis de trinta mil dólares.

Ele nunca teve um emprego, e é claro que Mary Anne e Modesto desconfiavam de todo aquele dinheiro, dos relógios caros, das roupas não menos. Quando perguntavam alguma coisa, Andrew desconversava, ou não respondia.

Mas os dois estavam mais preocupados com outro problema: Modesto falhara tremendamente na nova profissão, fora despedido de várias corretoras. Por fim, acabou abandonando a família e fugindo para as Filipinas acusado de um desvio de cento e seis mil dólares.

Pouco tempo depois Mary Anne flagrou o filho beijando um homemem San Diego. Discutiram, ele a agrediu, depois se desculpou. Seguiu-se um período tumultuado nas relações com a mãe, depois com o pai – Andrew foi dar um tempo nas Filipinas – até que ele, finalmente, desembarcou naquela que é a capital do orgulho gay norte–americano: São Francisco.

No acostamento,

Andrew cravou três

balas no cara ao lado

Em São Francisco, multiplicou e aperfeiçoou seus personagens. Sua criação de maior sucesso talvez tenha sido o jovem e sofisticado tenente Drew Cummings, da Marinha dos Estados Unidos. E na pele de Cummings, como na de vários outros, espalhou-se pelo Distrito de Castro, o bairro dos homossexuais, e também seu submundo, antro da barra pesada gay, lésbica, masoquista, sado-masoquista e drogados.

Um novo amigo, o advogado Eli Gould, colocou-o no paraíso que buscava: o exclusivíssimo mundo de Hollywood, com toda sua variedade de atores, atrizes, modelos, personalidades das mais variadas facetas, famosas ou em busca da fama. Aqui, neste glamuroso portal, teve um rápido encontro e um brevíssimo diálogo com alguém que jamais esqueceria: sua gay majestade, rei da alta-costura, Gianni Versace.

A nata daquela fauna estava reunida, depois de um espetáculo na ópera, em uma festa de gala na discoteca Colossus. A jornalista e escritora Maureen Orth registrou a cena desta maneira:

“O estilista entrou com sua corte particular, que logo o apresentou a algumas poucas pessoas. Depois de aproximadamente quinze minutos de ti-ti-ti, e do assédio de jovens ansiosos por conhecê-lo, Versace voltou-se para observar as pessoas que estavam na sala. Notou Andrew ao lado de Eli, cumprimentou-o com um inclinar da cabeça e caminhou na direção dos dois. ‘Eu conheço você’, disse a Andrew. ‘Lago di Como, não é’? Versace se referia à sua casa junto à fronteira suíça. Andrew estava maravilhado e Eli não acreditava no que via. ‘É verdade’, respondeu Andrew. ‘Obrigado por lembrar-se, signor Versace’.”

Era mentira. Ele jamais estivera lá, nem vira Versace pessoalmente antes daquela noite. Era óbvio que havia sido confundido com outra pessoa, mas podem apostar que nunca passou por sua cabeça desfazer a confusão.

No Distrito de Castro, Andrew Cunanan começou a chafurdar na lama. Foi introduzido, ou introduziu-se, entre os praticantes do sexo bizarro, das roupas de couro, dos chicotes, das torturas. Deixou-se empolgar pela dor. Era amarrado, chicoteado, esbofeteado e submetido aos mais pervertidos cerimoniais do sado-masoquismo – e adorava cada um deles. Aí juntou toda sua parafernália de objetos e práticas dos subterrâneos do sexo, gritou luz, câmara, ação, e entrou para o cinema pornô.

Por outro lado, à medida que mais se deixava violentar, foi ele próprio tornando-se violento, sádico, raivoso. Um de seus amigos contou ao escritor Joe Geringer que certa vez foi drogado por Andrew sem o saber. Ele colocou algo em seu copo e, quando a droga fez efeito, sua consciência se foi. Acordou horas depois, no apartamento de Andrew. E então sentiu dores, e viu, no próprio corpo, sinais de que havia sido submetido a coisas que fariam o Diabo feliz se estivesse lá.

Em 1994, quando completou 25 anos, era assim que vivia o senhor Andrew Multi-Personalidades Cunanan.

Terá sido um longo processo? Ou foi mesmo em 97, quando fez um teste de AIDS, não voltou para buscar o resultado, mas convenceu-se de que estava infectado? Ninguém sabe. O fato é que, no dia 27 de abril daquele mesmo 97 alguém já havia aberto uma porta e dito: “Senhor Cunanan, bem-vindo ao Inferno”. E ele havia entrado.

As várias personalidades se queimaram lá. Restou uma.

Puxou o revólver

e rendeu o senhor

Lee Miglin, 72 anos

1997, Andrew Cunanan aos 28 anos. Um a um, os ricos clientes gays haviam recolhido as chaves de seus apartamentos, os cartões de crédito, dito “até logo” e girado nos calcanhares. Andrew estava mais gordo, menos cuidado, cabelos longos que já não tinham um estilo, um corte.

Pior: seus dois amantes, Jeff Trail e David Madson, o estavam traindo. Talvez com outros homens, o que não teria grande importância, mas também um com o outro, o que era insuportável. Andrew Cunanan sempre sabia de tudo, lembram-se? Bem, isso não havia mudado.

Jeff e David estavam morando em Mineápolis, Minnesota. Não fora sempre assim. Em 1992 Jeff estava servindo a Marinha. Gay, ele tinha um caso com um dos oficiais do navio em que estava baseado – o USS Gridley, ancoradoem San Diego. Jeffem San Diego, e Andrew também…Quando se encontraram, o oficial perdeu a parada.

Os encantos da Marinha não foram suficientes para manter Jeff Trail a bordo do USS Gridley. Um cargo de gerência em uma empresa de Mineápolis o seduziu, e ele estava sinceramente comovido quando comunicou a Andrew sua decisão. Despediram-se carinhosamente, Andrew prometendo visitá-lo muitas vezes em sua nova cidade.

Uma dessas visitas aconteceu no final de 96, ou início de 97. Os dois jantavam em um restaurante quando os olhos de Andrew detectaram David Madson em uma mesa próxima. Madson era um jovem e rico arquiteto de São Francisco, onde ele e Andrew tiveram um caso.

David morando em Mineápolis? Não, não sabia que havia deixado São Francisco. Junte-se a nós, conheça Jeff Trail. Jeff, este é David Madson.

A conversa começou animada. Jeff mudou-se há pouco para Mineápolis, contou Andrew. David colocou-se imediatamente à disposição dele. Prontificou-se alegremente a apresentar-lhe alguns amigos, mostrar a cidade… Prometeu fazer com que se sentisse em casa.

Andrew não gostou daquilo.

Voltou para São Francisco sentindo que algo o incomodava. Toda manhã, quando acordava, percebia que aquele algo havia crescido. Numa delas seu pulso estava acelerado. Quando, em meados de abril, sentiu que o estômago revirava e a cabeça latejava, pegou o telefone e discou Minnesota, Mineápolis, Jeff Trail.

Naquela mesma noite, em um bar, disse a amigos que ficaria fora por uns dias, precisava concluir uns negócios. Quando os amigos descobriram que os negócios a que se referia eram em Mineápolis, eles também foram para o telefone. É preciso cuidado, disseram a David Madson. Andrew tem andado estranho.

Madson o apanhou no aeroporto em 26 de abril. Era um sujeito alterado, rancoroso, quase fora de si que tinha ao lado quando ligou o carro. Ouviu acusações pelo caminho. E ameaças a Jeff. Ameaças feitas ao próprio Jeff, na véspera, naquele telefonema maluco interrompido abruptamente por um “Eu vou matar você” e uma batida violenta no gancho.

Não havia motivos para aquilo, disse David mansamente. Não está acontecendo nada, você mesmo vai ver quando Jeff se juntar a nós.

Jeff chegou ao loft de Madson na noite seguinte.

O tom das vozes foi subindo. Da boca de David saiam pedidos de calma, mas eles não eram ouvidos. Seus olhos viram que uma das mãos de Andrew abria uma gaveta da cozinha. Puxava e erguia o martelo da carne. E baixava violentamente sobre a cabeça de Jeff. Uma, duas vezes… a cabeça despejava sangue e Andrew continuava batendo. Já havia sangue no tapete, na parede, nas roupas de Andrew.

Nos dois dias seguintes os porteiros do prédio viram David e Andrew entrarem e saírem tranqüilamente várias vezes. Vida normal. Lá em cima, enrolado em um tapete persa manchado de sangue, encostado em um canto para não atrapalhar a passagem, o corpo de Jeff Trail apodrecia.

Estava em uma

garagem, com o senhor

Miglin amarrado

Onde, diabos, anda o David? – era a pergunta que os colegas faziam no escritório. Ele já não aparecia há dois ou três dias, e um dos arquitetos da equipe resolveu dar-lhe um telefonema. Ninguém atendeu. Preocupado com o que poderia estar acontecendo, o arquiteto ligou para o síndico do prédio e pediu a ele que verificasse. O síndico encontrou manchas de sangue no chão, nas paredes e, atônito, descobriu um corpo enrolado em um tapete, atrás de um dos sofás, a cabeça esmigalhada.

De alguma maneira, sem que fossem vistos, David e Andrew ficaram sabendo da descoberta. Os dois pegaram o jipe Cherokee de David e caíram na estrada. Andrew levava em um dos bolsos o revólver calibre 40 com três balas no cilindro, e mais sete balas em outro bolso. Um revólver que havia sido de Jeff, deixado por eleem San Diego.

A polícia encontrou uma mochila de Andrew no loft de David, com artigos que o identificaram. No apartamento de Jeff, a secretária eletrônica ainda continha a mensagem do mesmo Andrew, que o convidava ao loft de David para uma conversa.

Enquanto isso, no Cherokee, os dois passavam pela placa rodoviária das45 milhasque os distanciavam de Mineápolis. Andrew ia de ótimo humor. Ele havia matado um homem, e havia gostado. Ele vira o sangue jorrar da cabeça de Jeff, vira pedaços do crânio se espalhando no tapete. Adorava aquela lembrança. Desviou o carro para o acostamento, meteu três balaçosem David Madson.

Aos 72 anos, o senhor Lee Miglin era, literalmente, um dos pilares da comunidade de Chicago. Além das inúmeras campanhas de arrecadação de fundos para a cidade, que ele e sua esposa Marilyn promoviam, algumas das sedes de companhias importantes, como a Hyatt Corporation, e prédios industriais vizinhos ao aeroporto O’Hare, foram construídos por ele. Marilyn era uma empresária de sucesso na área de cosméticos.

Ela estava fora de Chicago, viajando a negócios, no sábado, três de maio. Os Miglin viviam em um elegante condomínio de casas de campo ao norte da cidade, e o senhor Lee estava parado em frente ao seu jardim, provavelmente desfrutando a paisagem no anoitecer. Um vizinho o viu, e ele estava só.

Deve ter sido ali mesmo que Andrew Cunanan o encontrou e rendeu. Levou-o para a garagem, amarrou seus pulsos e tapou-lhe a boca com fita adesiva. Talvez Andrew estivesse drogado, mas isso ninguém jamais pôde saber. Mas que se divertiaem seu Infernoparticular, não há dúvida. Amarrado e amordaçado, o senhor Lee Miglin foi, a princípio, esmurrado. Depois chutado. Teve então, enterrada no peito, várias vezes, uma tesoura de podar arbustos. Gritava, urrava de dor, sem emitir nenhum som. Ainda respirava quando Andrew, vagarosamente, foi abrindo sua garganta com uma serra. Então, o toque final. Aquela trouxa inerte que havia sido o senhor Miglin foi colocada em frente ao Lexus 94 estacionado ali. Andrew ligou o motor e passeou sobre ela. Frente e ré, frente e ré. Quando parou, o que restava no chão era uma pasta.

Ligar Cunanan à morte do senhor Miglin não foi difícil. O Cherokee de Madson ficara nas proximidades, e o banco da frente estava coberto com fotos de Andrew – o atrevido desafiava a polícia. Ele estava agora no topo da lista dos dez mais procurados do FBI, e a caçada ia bem. Sabia-se que dirigia o Lexus 94. Por onde rodava, não era segredo: ele havia feito várias ligações do celular do carro. Os tiras rastearam as ligações e o detectaram nas proximidades de Filadélfia.

O que os policiais não sabiam é que Andrew vinha acompanhando as notícias pelo rádio, havia jogado fora e celular e sumira de vista. Pelo menos da vista dos vivos, porque se escondia em um lugar em que ninguém iria procurá-lo: um cemitério. Cemitério de Pennsville, Nova Jersey, próximo à fronteira da Pensilvânia.

Bem, mas agora ele precisava jogar fora também o Lexus. Olhando em volta do cemitério, viu uma picape Chevrolet 95 estacionada em frente a uma casa que parecia ser do zelador. De fato, William Reese, 45 anos, era o zelador do Cemitério de Pennsville. Ele ouviu batidas na porta e foi abri-la.

Andrew, sorrindo, perguntou se ele poderia servir-lhe um copo d’água para tomar uma aspirina. Claro, claro, respondeu Reese. Quando voltou com a água, Andrew já não sorria. Ao contrário, apontava-lhe um revólver.

– As chaves da picape – exigiu.

– Claro – respondeu Reese. – Não quero problemas.

Pegou as chaves que estavam no bolso e entregou-as. Andrew sorriu, e apertou o gatilho.

Em um café,

esperando alguém

que iria morrer

O FBI só tinha uma certeza: Andrew Cunanan ia matar novamente. Mas onde estava ele agora? Os agentes consultavam o mapa e se interrogavam. Andrew havia crescidoem San Diego, na costa Oeste, mudara-se para São Francisco, ainda na costa, mas mais ao Norte, e cometera os dois primeiros crimes – Trail e Madson – em Mineápolis, no Centro-Norte. Seguindo em direção ao Leste, matou Miglin em Chicago e, completando a travessia, Reeseem Nova Jersey. Paraonde estaria indo? Filadélfia e Nova York, ao Norte, ou tomaria rumo Sul, para Washington, Atlanta, quem sabe Miami, na Flórida? Os tiras não sabiam. Tudo o que podiam fazer era distribuir seus cartazes de “Procurado”, ilustrados com o maior número possível de fotos dele, mostrando a facilidade que tinha para mudar o rosto.

Andrew Cunanan rumava para o Sul, destino Miami, Flórida, mais exatamente Miami Beach. Porque, como havia feito quando deixou São Francisco em direção a Mineápolis, atrás de Trail e Madson, e ao contrário do que havia acontecido com Miglin e Reese, que surgiram por acaso, ele já havia escolhido sua próxima vítima.

O inimigo público número um dos Estados Unidos, o homem no topo da lista dos dez mais procurados pelo FBI, hospedou-se em um hotel em Miami e ali viveu por mais de dois meses sem que ninguém o incomodasse. Andrew chegou à cidade no dia dez de maio de 97, colocou o Chevrolet de Reese em um estacionamento, e nunca mais foi buscá-lo. Um caso típico de carro abandonado, mas que não chamou a atenção de ninguém. A picape que deveria estar sendo exaustivamente caçada por todo o País ficou lá e só foi descoberta depois de mais um assassinato.

Andrew escolheu o Normandy Plaza Hotel. Já teve dias de glória, hoje é apenas um ponto de caminhoneiros ou viajantes que se hospedam por uma noite, ou algumas semanas. Andrew alugou o apartamento 322, no terceiro andar, pagando 690 dólares por mês. Como não tinha bagagem, pagava adiantado.

Freqüentou a praia, os bares, as boates, os pontos gays de Miami. Mais uma vez estava vendendo sexo para sobreviver. Em algumas noites raspava as pernas e se travestia. Voltara a viver comoem São Francisco. Váriasvezes bronzeou o corpo na praia de Miami Beach vendo carros da polícia fazendo a ronda por ali.

Foi reconhecido uma vez. O caso foi contado pelo repórter Richard Lacayo, da revista “Time”. Um empregado de um fast-food, G. Kenneth Brown, notou que era Cunanan aquele sujeito que lhe pedia um sanduíche de atum. Brown levou o pedido à cozinha, esgueirou-se para o telefone e discou 911, o número de emergência da Polícia. Ele ainda falava com o policial enquanto um de seus colegas levou o sanduíche, recebeu o dinheiro e disse bye-bye quando Andrew saiu para a rua.

Mas agora já se sabia: Andrew Cunanan estavaem Miami Beach. Sóque nem a polícia local, nem o FBI, fez o alerta. E a comunidade de Miami ficou sem saber o perigo que corria.

Andrew levava uma boa vida, mas não se descuidava do alvo. Circulava por bares gays caríssimos, pelos clubes Twist, KGB e Liquid. Passou várias manhãs percorrendo o caminho entre a rua Onze e a avenida Ocean Drive, palco badaladíssimo em que muitas celebridades, entre elas o senhor Gianni Versace, apareciam para um sofisticado café da manhã no News Cafe. Normalmente acompanhado, em todos os lugares, por uma equipe de guarda-costas e bajuladores, ali, no News Cafe, Versace gostava de ir sozinho. Andrew sabia disso.

Os dias do famoso estilista se esgotavam: Gianni Versace morreria a 15 de julho. Mas ainda falta uma semana para a data fatal, e o que é que preocupa Andrew Cunanan? Ele está sem dinheiro. Ele investiu no cerco a Versace, pagou contas altas em bares, boates e restaurantes caros. Tem apenas alguns trocados no bolso, e o que é que decide fazer? Recorrer ao penhor. Depois que matou Lee Miglin em Chicago, ele saiu da garagem, entrou na casa, comeu o que de melhor havia na geladeira, assistiu filmes no videocassete e dormiu na cama do casal (a senhora Miglin viajava a negócios, lembram–se?). Na manhã seguinte revistou a casa, pegou o dinheiro que encontrou, e também algumas moedas de ouro.

Agora ele iria colocar uma das moedas no prego. Vivian Oliva, a operadora da casa de penhores Cash On The Beach, Dinheiro Na Praia, ofereceu 200 dólares por ela. OK, mas Andrew precisaria apresentar dois documentos de identificação que confirmassem sua assinatura, mais um comprovante de residência. Pois bem: ele apresentou dois documentos reais, assinou seu nome real no formulário que lhe foi apresentado, e comprovou seu endereço real, Normandy Plaza Hotel.

Andrew seguiu seu caminho, aquele formulário também. De acordo com as normas locais, ele foi encaminhado ao Departamento de Polícia de Miami Beach. Motivo: checar, em uma lista de nomes de fugitivos, se o cliente do penhor não havia apresentado um objeto roubado. Bingo!

Recebido por um policial do Departamento, o formulário foi encaminhado ao setor competente e depositado na mesa do funcionário que iria fazer a checagem. Funcionário este que… estavaem férias. Horasdepois do crime alguém notaria aquele papel sobre a mesa e gritaria: “Ei, vejam só isto aqui”.

Um belo café da manhã foi servido ao senhor Gianni Versace naquele dia 15 de julho de 97. Como sempre, aliás. Versace era também um bom gourmet, conhecia o excelente serviço do News Cafe e era um de seus clientes mais assíduos. Ele terminou o café, pagou, cumprimentou o garçom que agradecia a gorjeta e foi caminhando para casa, a mansão de fachada Renascentista a poucos passos dali. Chegando, subiu os cinco degraus da escadaria de pedra em frente ao grande portão de ferro, com florais no centro e nas laterais, e colocou a chave na fechadura. Duas balas calibre 40 estouraram sua cabeça naquele exato momento.

Andrew Cunanan, que viera acompanhando os passos dele desde o Cafe, girou nos calcanhares e foi embora.

A Imprensa bateu forte, a comunidade da Flórida ultrapassou a indignação, o FBI e a polícia local ficaram acuados. Descobriu-se o Chevrolet de Reese no estacionamento, foi divulgado o telefonema do fast-food para o 911, o formulário do penhor foi encontrado, localizou-se o apartamento 322 do Normandy Plaza Hotel.

Mas por que Versace? – era uma das perguntas. O FBI apresentou uma teoria nunca comprovada de que Andrew teria sido recusado por ele em um teste de modelos.

Oito dias se passaram sem que houvesse sinais de Cunanan. Na tarde de 23 de julho o zelador Fernando Carreira, português, encarregado da guarda da casa de barcos do milionário alemão Torsten Reineck, em um canal muito exclusivo de Miami, notou uma porta entreaberta. Foi investigar. Nada de errado na sala de estar. Mas quando ele chegou ao primeiro andar viu-se cara a cara com um jovem que, ao vê-lo, correu para o quarto do senhor Reineck e bateu violentamente a porta ao entrar. O jovem correu para um lado, Carreira para o outro. Ele havia notado de imediato que se tratava do fugitivo que o FBI estava procurando.

A casa de barcos foi cercadaem minutos. Quatrocentospoliciais ocuparam o cais. Atiradores de elite tomaram posição em pontos estratégicos. Barcos da polícia costeira cercaram a praia pelo lado do mar. Helicópteros sobrevoavam. O cerco durou três horas, “Saia com as mãos para cima”, até que a ordem de ataque foi dada, às oito e quinze da noite.

Bombas de gás foram lançadas e vários agentes entraram, através de portas e janelas. Nada encontraram no andar de baixo. Automáticas engatilhadas, subiram. Silêncio. Então eles o viram.

No Inferno, Andrew Cunanan estava caído ao lado da cama, o revólver de Jeff Trail em uma das mãos, partes do crânio jogadas para fora através de um buraco na cabeça.

(Este texto foi feito através de pesquisas em jornais norte-americanos e sites na internet)